Juliana Soares, sobrevivente de tentativa de feminicídio em Natal, é homenageada por Janja durante adesão do RN ao pacto contra feminicídios. (Foto: Reprodução)

A advogada potiguar Juliana Soares, que ficou conhecida nacionalmente após sobreviver a uma tentativa de feminicídio em que foi agredida com 61 socos pelo ex-companheiro dentro de um elevador em Natal, foi homenageada pela primeira-dama Janja Lula da Silva durante a cerimônia de adesão do Rio Grande do Norte ao Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios.

O ato ocorreu nesta sexta-feira (26), em Natal, e reuniu representantes do Governo Federal, do Governo do Estado, do sistema de Justiça e de instituições envolvidas no enfrentamento à violência contra as mulheres. A cerimônia marcou a adesão do RN ao pacto, iniciativa que busca integrar União, estados, municípios e os três Poderes em ações de prevenção, proteção e combate ao feminicídio.

Durante o discurso, Janja lembrou mulheres que tiveram suas vidas interrompidas pela violência feminicida e afirmou que transformar indignação em políticas públicas é uma responsabilidade coletiva.

“Essas mulheres tiveram suas histórias, seus projetos, famílias, sonhos e planos para o futuro interrompidos. Ao pronunciar seus nomes, fazemos mais do que prestar uma homenagem. Assumimos a responsabilidade de transformar indignação em ação, luto em compromisso e a memória dessas mulheres em políticas públicas capazes de proteger outras vidas”, afirmou.

Homenagem a Juliana Soares

Janja chamou Juliana Soares ao palco e destacou a gravidade do caso que chocou o país. Segundo a primeira-dama, a violência contra mulheres também busca apagar identidades.

“O caso da Juliana chocou o Brasil pela brutalidade e pela tentativa de apagamento da sua identidade. Ela sofreu fraturas severas no rosto e passou por várias cirurgias reconstrutivas. Quando um homem agride uma mulher, muitas vezes o alvo principal é o rosto. Ele quer apagar quem ela é”, declarou.

Em seguida, Janja celebrou a recuperação da advogada e reconheceu a falha da sociedade diante da violência sofrida por ela.

“Juliana, você é uma sobrevivente. É uma alegria comemorar a sua vida e a sua recuperação. Eu lamento que a gente tenha falhado como sociedade quando você precisou passar por isso”, disse.

A primeira-dama também defendeu a importância do Sistema Único de Saúde no atendimento às vítimas de violência e citou ações voltadas à reconstrução facial de mulheres agredidas. Ela ainda alertou para o avanço de discursos de ódio contra mulheres nas redes sociais e defendeu medidas preventivas desde a infância.

“O que começa na tela não termina na tela. Quando o ódio contra as mulheres é naturalizado, ele ultrapassa o ambiente virtual e se manifesta na vida real. Precisamos educar nossos meninos para que entendam que meninas e mulheres têm o direito de ser quem quiserem e sonhar o que quiserem”, afirmou.

“Represento quem não teve a mesma chance”

Após a solenidade, Juliana Soares afirmou que o convite para subir ao palco foi um dos momentos mais marcantes desde que sua história ganhou repercussão nacional.

“Foi muito emocionante, principalmente por poder representar as mulheres que infelizmente não tiveram a mesma chance que eu. Eu me senti muito tocada por isso. Eu não virei uma estatística. Estou aqui para lutar pelos nossos direitos”, declarou.

Juliana também destacou a importância da adesão do Rio Grande do Norte ao pacto.

“Esse pacto tem muita importância. Em outros municípios onde ele já foi implantado já conseguimos ver resultados positivos. A intenção é chegar ao número zero, mas os números já estão diminuindo. O Estado tem um papel fundamental nesse compromisso para que a vida das mulheres seja preservada e para que nossos direitos sejam garantidos”, afirmou.

A advogada disse que pretende continuar atuando em defesa das mulheres e transformar sua história em instrumento de conscientização.

“A minha bandeira é essa. Estou aqui para lutar para que as mulheres tenham seus direitos assistidos. Assistência não é favor, é dever do Estado e também da sociedade acolher essas mulheres”, disse.

RN adere ao Pacto Brasil contra o Feminicídio

Rio Grande do Norte adere ao Pacto Brasil contra o Feminicídio (Foto: Carmen Felix – Secom/RN)

 

RN adere ao pacto contra feminicídio

Durante entrevista coletiva, Janja afirmou que a meta do país deve ser zerar os casos de feminicídio e destacou a importância da atuação integrada entre governos e poderes.

“O feminicídio não é um problema de um único órgão ou de uma única esfera de governo. É um desafio nacional que exige respostas articuladas. O sucesso dessa iniciativa será medido pelas vidas que conseguiremos proteger e pela nossa capacidade de fazer com que o número de feminicídios caminhe para um único número aceitável: zero”, declarou.

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, anunciou avanços para a implantação da Casa da Mulher Brasileira no Rio Grande do Norte, com investimento previsto de R$ 19 milhões. A unidade deverá reunir serviços especializados de acolhimento e atendimento a mulheres em situação de violência.

A governadora Fátima Bezerra afirmou que a adesão ao pacto representa um compromisso político e institucional. Segundo ela, o estado ampliou a rede de proteção com a expansão da Patrulha Maria da Penha para todas as regiões e a criação de sete novas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher após 17 anos sem abertura de unidades.

De acordo com Fátima, cerca de duas mil mulheres foram acompanhadas pela Patrulha Maria da Penha em 2025 no cumprimento de medidas protetivas.

O caso de Juliana Soares voltou ao debate público na mesma semana em que a Justiça decidiu levar a júri popular Igor Eduardo Pereira Cabral, acusado de tentar matar a então namorada com 61 socos dentro de um elevador em Natal. O réu responderá por tentativa de feminicídio com duas qualificadoras, teve a prisão preventiva mantida e aguarda a definição da data do julgamento.

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