As contas públicas dos estados brasileiros devem fechar 2026 no vermelho, em um cenário de deterioração fiscal em ano eleitoral. Segundo projeções da XP Investimentos, os governos estaduais devem encerrar o ano com déficit de R$ 6 bilhões, revertendo o superávit de R$ 6,6 bilhões registrado em 2025. Entre os casos que mais preocupam os analistas está o Rio Grande do Norte, que aparece com baixa disponibilidade de caixa e crescimento das despesas acima da arrecadação.
De acordo com o economista da XP Tiago Sbardelotto, a tendência de piora já era esperada em um ano de eleições, especialmente quando os governos encontram espaço para ampliar gastos.
“Isso já era esperado num ano eleitoral. Quando existe espaço fiscal, esses entes tendem a aumentar a despesa acima dos anos anteriores”, afirmou.
Até abril, as despesas totais dos estados cresceram 6,5% acima da inflação. O ritmo foi quase o dobro do avanço real da arrecadação de impostos e outras receitas, que subiu 3,3% no mesmo período. Para a XP, esse descompasso ajuda a explicar a inversão do resultado fiscal projetado para este ano.
No caso do Rio Grande do Norte, comandado pela governadora Fátima Bezerra (PT), em fim de segundo mandato, o alerta é mais intenso. O levantamento aponta que o estado entrou 2026 com baixa disponibilidade de caixa, estimada em menos R$ 3 bilhões. Além disso, os gastos potiguares cresceram 17,7% no ano, enquanto a arrecadação avançou apenas 5,3%.
“Considerando a baixa disponibilidade de caixa, até abril deste ano, o que mais preocupa é o Rio Grande do Norte”, avaliou Sbardelotto.
Além do RN, o levantamento cita Minas Gerais, Alagoas, Distrito Federal e Acre entre os entes que começaram o ano com caixa negativo. Minas, que era governado por Romeu Zema (Novo) até sua saída para se dedicar à pré-candidatura à Presidência, entrou 2026 com déficit de R$ 11 bilhões em caixa para cumprir obrigações futuras. Alagoas, sob o governo de Paulo Dantas (MDB), aparece com caixa negativo em R$ 926 milhões.
A XP também identificou outro grupo de estados que já está com as contas no vermelho neste ano: Tocantins, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraná e Mato Grosso do Sul.
Gastos crescem mais que receitas
Segundo o levantamento, os estados que mais ampliaram despesas acima da arrecadação em 2026 foram Maranhão, Rio Grande do Norte e Mato Grosso. No Maranhão, os gastos subiram 21,4%, diante de alta de 8,9% na receita. No RN, a despesa avançou 17,7%, contra crescimento de 5,3% da arrecadação. Em Mato Grosso, os gastos aumentaram 16,6%, enquanto a receita cresceu 4,9%.
“Dentro das nossas projeções, os estados vão contribuir para uma política fiscal expansionista. Prevemos aumento de 40% nos investimentos dos estados”, afirmou Sbardelotto.
Para Marcus Pestana, diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), a expansão dos gastos pode pressionar ainda mais os estados que não têm caixa disponível. Segundo ele, esses governos tendem a elevar dívidas com a União ou acumular restos a pagar para a próxima gestão.
A situação, no entanto, não é igual em todo o país. Pestana cita São Paulo como exemplo de estado com endividamento elevado, mas bom fluxo de caixa e alta capacidade arrecadatória. Já o Rio Grande do Norte apresenta média C na classificação de capacidade de pagamento do Tesouro Nacional, principalmente por problemas de fluxo de caixa, apesar do baixo endividamento.
O Espírito Santo aparece na outra ponta. O estado, agora governado por Ricardo Ferraço (MDB), após a saída de Renato Casagrande (PSB), é citado como o principal exemplo de equilíbrio fiscal, com nota A e alta capacidade de investimento. As contas capixabas mantêm boa avaliação desde gestões anteriores.
Mudanças legais ampliaram espaço para despesas
A XP aponta três fatores principais para a piora do resultado fiscal dos estados. O primeiro é a disponibilidade de caixa positiva deixada em 2025, de R$ 29 bilhões, que permitiu a alguns governos ampliar despesas em 2026. O valor, no entanto, é inferior ao saldo de R$ 49 bilhões registrado em 2024.
O segundo fator é o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados, o Propag, que permitiu o parcelamento das dívidas estaduais em 30 anos, com redução de juros. Como contrapartida, os estados devem contratar investimentos em áreas prioritárias, como educação, saúde e segurança pública.
Para que o benefício não fique restrito aos estados mais endividados, foi criado um fundo de equalização. Parte da economia com juros dos entes mais endividados abastece esse fundo, permitindo que estados com contas mais equilibradas também ampliem investimentos.
O terceiro ponto é a aprovação da PEC dos Precatórios, em setembro do ano passado. A medida permitiu que estados e municípios parcelassem dívidas judiciais em até 300 meses. Antes, o prazo era de 60 meses.
“Ao reduzir o ônus com precatórios, sobram mais recursos para aumentar despesas. Não muda o total dos gastos, mas muda a composição”, explicou Sbardelotto.
Estados têm realidades fiscais diferentes
O coordenador de Estudos de Conjuntura do Ipea, Cláudio Hamilton, avalia que alguns estados que antes tinham indicadores melhores começaram a apresentar sinais de piora. Ele cita Ceará e Tocantins, cujas dívidas líquidas eram de 17,4% e 8,6% das respectivas receitas anuais em 2008 e chegaram a 39% e 26% no fim do ano passado.
Hamilton também observa que outros estados reduziram significativamente o endividamento em relação à receita, como Alagoas, Mato Grosso do Sul, Paraná, Goiás, Santa Catarina e São Paulo. Em Alagoas, a dívida caiu de 162,7% da receita para 65,3%. Em São Paulo, o índice passou de 187,9% em 2008 para 128,5%, embora ainda permaneça elevado.
“Não acho tão problemático assim estados aumentarem os gastos um pouco em um ano eleitoral se baixaram os respectivos endividamentos enormemente. Já nos casos de Minas, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, pensaria diferente”, afirmou Hamilton.
O economista Claudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria, também aponta diferenças relevantes entre os estados. Além do Espírito Santo, ele cita Piauí, Sergipe e São Paulo como entes “razoavelmente bem administrados” do ponto de vista das contas públicas.
Na outra ponta, segundo Frischtak, estão estados que enfrentam fragilidade fiscal crônica, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Esses entes acumulam dívida elevada, déficits recorrentes e dependência de repactuações com a União.
“São estados que, do ponto de vista fiscal, são fragilizados. Estão continuamente entrando em processo de repactuação da dívida com a União, como Rio, Minas e Rio Grande do Sul. São estados com notas C e D no índice de capacidade de pagamento do Tesouro”, explicou.
No Rio de Janeiro, atualmente governado interinamente pelo desembargador Ricardo Couto de Castro, a situação é considerada especialmente delicada. Segundo análise de Hamilton, a dívida do estado, que nos anos 2000 equivalia a uma vez e meia a receita corrente líquida, passou a representar quase o dobro da arrecadação.
Minas Gerais e Rio Grande do Sul também seguem pressionados. A dívida mineira representa 169,1% da receita do estado. No Rio Grande do Sul, apesar de alguma melhora no indicador, os débitos ainda correspondem a 223,3% do que o estado arrecada.
Frischtak observa que, mesmo com receitas de royalties do petróleo e da mineração, Rio de Janeiro e Minas Gerais não conseguiram transformar esses recursos extras em equilíbrio fiscal duradouro. No caso fluminense, a situação pode se agravar caso avance no Supremo Tribunal Federal a discussão sobre redistribuição dos royalties do petróleo.
Para o economista, parte do problema também está ligada à sonegação de impostos por devedores contumazes em setores como combustíveis, cigarros e bebidas. Em outros estados, afirma, predomina uma cultura de expansão permanente de gastos.
“Essa percepção de que ‘gasto é vida’ é muito ampla na nossa política”, disse Frischtak.



