O Instituto Veritá tornou-se alvo de sucessivas impugnações de pesquisas eleitorais no Rio Grande do Norte e em outros estados do país. Somente no território potiguar, três levantamentos realizados pela empresa tiveram a divulgação suspensa pela Justiça Eleitoral em 2026.
A decisão mais recente foi proferida na sexta-feira (12) pela juíza Francimar Dias, do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN). Em caráter liminar, a magistrada determinou a suspensão da pesquisa RN-06276/2026, que apresentava Álvaro Dias (PL) na liderança da disputa pelo Governo do Estado, seguido por Cadu Xavier (PT) e Allyson Bezerra (União).
O levantamento havia sido divulgado na quarta-feira (10) e teve a metodologia questionada pelo Republicanos. A representação apontou inconsistências no plano amostral e falta de detalhamento das bases usadas para definir o perfil dos entrevistados.
Segundo o partido, 34% da amostra era composta por pessoas com ensino superior, enquanto outros institutos utilizam percentuais próximos de 14% com base em dados oficiais. A distribuição por renda também foi contestada: 25% dos entrevistados recebiam mais de cinco salários mínimos, proporção superior aos cerca de 13% adotados em outros levantamentos.
O Instituto Veritá informou ter utilizado dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Ministério da Educação (MEC) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No entanto, não especificou as tabelas, os levantamentos nem os anos de referência utilizados.
Ao analisar o pedido, Francimar Dias identificou, em avaliação preliminar, incompatibilidades entre o perfil da amostra e a distribuição demográfica do eleitorado potiguar, principalmente nas variáveis de escolaridade e renda.
“Essa grande divergência nos dados percentuais, aferível de maneira objetiva, associada à indicação genérica da base de dados que serviu de parâmetro para a definição do plano amostral, prejudica, em uma análise preliminar, a capacidade de fiscalização do Ministério Público Eleitoral e dos demais interessados acerca da representatividade da amostra pesquisada, de modo a justificar o deferimento do pedido de suspensão da pesquisa eleitoral impugnada”, escreveu a juíza.
A magistrada determinou a interrupção imediata da divulgação do levantamento em plataformas, sites e meios de comunicação até nova deliberação judicial. Também fixou multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento. O pedido para estender a ordem de remoção a terceiros que reproduziram os resultados será analisado posteriormente.
Veritá já teve três pesquisas suspensas no RN
A RN-06276/2026 é a terceira pesquisa do Instituto Veritá suspensa pela Justiça Eleitoral no Rio Grande do Norte neste ano.
Em decisão proferida no dia 13 de maio, o juiz Marcello Rocha Lopes já havia interrompido a divulgação dos levantamentos RN-02256/2026 e RN-04097/2026, também após representações apresentadas pelo Republicanos.
As ações apontaram questionamentos semelhantes sobre a composição das amostras, a super-representação de entrevistados com ensino superior e a falta de informações detalhadas sobre os parâmetros utilizados pelo instituto.
Os três levantamentos apresentavam resultados semelhantes para a disputa estadual e foram realizados com recursos próprios da empresa, sediada em Uberlândia, Minas Gerais, conforme os registros oficiais.
Suspensões alcançam outros estados
Os questionamentos contra pesquisas do Veritá não estão restritos ao Rio Grande do Norte. Levantamentos realizados pelo instituto também tiveram a divulgação suspensa pela Justiça Eleitoral em Santa Catarina, no Distrito Federal, no Amazonas e no Tocantins.
Em Santa Catarina, o TRE-SC suspendeu uma pesquisa destinada às disputas pelo Governo do Estado e pelo Senado após a identificação de municípios do Maranhão no relatório sobre a composição da amostra catarinense.
O documento original mencionava cidades maranhenses entre os locais abrangidos pelo levantamento. Posteriormente, o arquivo disponível no sistema da Justiça Eleitoral foi substituído por uma versão corrigida.
No Distrito Federal, a divulgação da pesquisa DF-01208/2026 foi suspensa por decisão liminar diante de questionamentos sobre a metodologia e as informações registradas no sistema PesqEle da Justiça Eleitoral.
No Amazonas, o TRE-AM determinou a suspensão da pesquisa AM-03377/2026 após a identificação de inconsistências nos dados apresentados. A análise mencionada na ação apontou a repetição de respostas na planilha de microdados do levantamento.
No Tocantins, a Justiça Eleitoral também suspendeu uma pesquisa do instituto para os cargos de governador e senador. A decisão mencionou falta de transparência e ausência de indicação considerada adequada das fontes públicas utilizadas nas variáveis de escolaridade e condição econômica.
As decisões são liminares e suspendem temporariamente a divulgação dos levantamentos até novas deliberações da Justiça Eleitoral.
Associação cobra mais rigor na fiscalização
Em meio às impugnações, a Associação dos Institutos de Pesquisas do Rio Grande do Norte (ASSINP/RN) divulgou uma nota em defesa da ética, da transparência e da credibilidade das pesquisas de opinião pública.
A entidade afirmou observar o crescimento de práticas consideradas mercantilistas no setor, com a publicação de levantamentos divergentes e sem o cumprimento adequado de critérios técnicos e legais.
Segundo a associação, pesquisas eleitorais devem apresentar metodologia transparente, amostra representativa, margem de erro claramente informada e registro nos órgãos competentes. A entidade também alertou que sondagens com falhas técnicas podem distorcer a percepção da sociedade e prejudicar o processo democrático.
“Defendemos, com veemência, que o Poder Judiciário Eleitoral intensifique o rigor na fiscalização das pesquisas, combatendo irregularidades, punindo desvios éticos e garantindo que apenas informações verdadeiras, confiáveis e tecnicamente consistentes cheguem à sociedade”, declarou a ASSINP/RN.
A associação afirmou ainda que continuará atuando para fortalecer o mercado de pesquisas no Rio Grande do Norte e preservar a confiança do eleitorado e a integridade do processo eleitoral.




