Natal, capital do Rio Grande do Norte (Foto: Canindé Soares)

No Rio Grande do Norte, a política sempre teve sobrenome. Ao longo de mais de meio século, famílias como Alves, Maia e Rosado ocuparam espaços centrais no Executivo, no Legislativo, nos partidos e em estruturas de comunicação, transformando o parentesco em um dos principais ativos de poder no estado. Mesmo com a perda de protagonismo de antigos líderes, os clãs continuam presentes na disputa por influência, mandatos e alianças eleitorais.

A presença familiar na política potiguar não se limita à memória histórica. Em 2026, integrantes de grupos tradicionais ainda ocupam cargos relevantes. Walter Alves, do MDB, é vice-governador do Rio Grande do Norte. João Maia, do PP, exerce mandato de deputado federal. Robinson Faria, também do PP, está na Câmara dos Deputados. Terezinha Maia, do PL, tem mandato na Assembleia Legislativa. Já a família Rosado voltou a ocupar espaço institucional no primeiro escalão estadual com Lairinho Rosado, nomeado recentemente para comandar a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação.

A família Alves, originária de Angicos, consolidou força política a partir da década de 1960. Entre seus nomes mais conhecidos estão Aluízio Alves, ex-governador e ex-ministro; Garibaldi Alves Filho, ex-governador e ex-senador; Henrique Eduardo Alves, ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara; além de Walter Alves, atual vice-governador.

Os Maia também marcaram a política estadual com nomes como Tarcísio Maia, Lavoisier Maia e José Agripino Maia. Hoje, a família mantém presença institucional por meio do deputado federal João Maia e da deputada estadual Terezinha Maia, além de articulações partidárias no campo conservador e no interior do estado.

Em Mossoró e na região Oeste, os Rosado formaram um dos grupos familiares mais longevos da política potiguar. O clã elegeu prefeitos, deputados, senadores e governadores, com forte presença histórica no segundo maior município do estado. Embora tenha perdido representação direta nas bancadas federal e estadual, a família mantém presença institucional no governo estadual com a chegada de Lairinho Rosado à Sedec.

Faria ampliam presença no Congresso

Além do tripé tradicional formado por Alves, Maia e Rosado, a família Faria se consolidou como outro grupo de destaque na política recente do Rio Grande do Norte. Robinson Faria, ex-governador do estado, exerce mandato de deputado federal pelo PP. Seu filho, Fábio Faria, foi deputado federal e ministro das Comunicações no governo Jair Bolsonaro.

O grupo tem base política ligada principalmente ao Agreste potiguar e ampliou sua atuação por meio de alianças partidárias, mandatos no Legislativo e presença em articulações nacionais. A trajetória dos Faria reforça uma marca comum aos clãs políticos do estado: a capacidade de adaptação a diferentes ciclos de poder.

Mudanças partidárias mantêm clãs no jogo

A sobrevivência dessas famílias não se explica apenas pelo sobrenome. Ela também passa pela capacidade de mudar de partido, reorganizar alianças e se manter próxima dos grupos que disputam o comando do estado e do país.

Os Alves, historicamente ligados ao antigo PMDB, atual MDB, passaram por rearranjos políticos nas últimas décadas. Walter Alves permanece no MDB, mas o grupo já transitou por diferentes alianças eleitorais no estado. Carlos Eduardo Alves, ex-prefeito de Natal, também construiu trajetória própria fora do núcleo partidário tradicional da família.

Os Maia tiveram forte identificação histórica com o PFL e o DEM, principalmente em torno de José Agripino. Com a reconfiguração partidária nacional, João Maia passou a atuar no PP, legenda pela qual exerce mandato federal. Terezinha Maia permanece no PL.

A família Faria também mudou de rota ao longo dos anos. Robinson e Fábio Faria cresceram politicamente em partidos como PMN e PSD, depois se aproximaram da direita nacional e do bolsonarismo. Atualmente, Robinson exerce mandato pelo PP.

Comunicação também sustentou influência

Outro elemento decisivo para a força dos clãs foi a relação com meios de comunicação. Por décadas, famílias tradicionais tiveram ligação direta ou indireta, propriedade ou influência sobre rádios, TVs e jornais, o que ampliou sua capacidade de presença no debate público.

Os Alves estiveram historicamente associados ao Sistema Cabugi de Comunicação e à Tribuna do Norte. Os Maia construíram presença com a TV Tropical e a Rede Tropical de rádios. Os Rosado tiveram forte atuação na mídia regional de Mossoró, com veículos como O Mossoroense e a Gazeta do Oeste.

Esse poder, no entanto, perdeu força com a crise dos jornais impressos, o crescimento dos portais de notícias, a ascensão das redes sociais e a multiplicação de blogs e canais digitais no interior. A antiga concentração da informação deixou de ser tão dominante, mas o capital político acumulado por essas famílias ainda pesa nas articulações eleitorais.

Herança política resiste, mas enfrenta desgaste

O cenário atual mostra uma mudança de fase. As famílias tradicionais já não controlam sozinhas a política potiguar como em décadas anteriores. A ascensão de novos grupos, lideranças municipais, partidos competitivos e movimentos digitais reduziu o domínio dos antigos clãs.

Ainda assim, o parentesco segue funcionando como vantagem política. Ele garante memória eleitoral, redes de apoio, trânsito partidário, acesso a lideranças locais e capacidade de negociação. No Rio Grande do Norte, o sobrenome deixou de ser garantia de vitória automática, mas continua sendo senha de entrada nos principais ambientes de poder.

A disputa de 2026 tende a testar novamente essa força. Entre mandatos atuais, cargos estratégicos, alianças em formação e tentativas de reposicionamento, os clãs tradicionais mostram que perderam parte do brilho, mas não desapareceram. No RN, o DNA do poder ainda circula por velhas famílias, mesmo em um cenário político mais fragmentado e competitivo.

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