As condições das rodovias estaduais se tornaram um dos principais pontos de cobrança sobre a gestão da governadora Fátima Bezerra (PT). Ao longo dos anos, prefeitos, moradores e setores produtivos fizeram reclamações sobre buracos, deterioração do pavimento e dificuldades de tráfego em diferentes regiões do Rio Grande do Norte.
Um dos diagnósticos mais contundentes surgiu em 2024, quando a Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou os resultados da Pesquisa CNT Rodovias 2023. Entre as rodovias estaduais analisadas no Rio Grande do Norte, todas foram classificadas como “péssimas” em sua avaliação geral. A ressalva é importante: a pesquisa não avaliou todas as RNs existentes no Estado, mas apenas uma amostra.
Foram analisadas pela CNT as RN-023, RN-079, RN-104, RN-110, RN-117, RN-118, RN-177, RN-226, RN-233 e RN-405. No conjunto das rodovias avaliadas no Estado, apenas 20,7% apresentaram condições consideradas boas ou ótimas. Entre os trechos estaduais pesquisados, nenhum recebeu essas classificações e apenas 14,9% foram considerados regulares.
O levantamento também dimensionou o impacto econômico do problema. Segundo a CNT, as más condições das rodovias provocaram desperdício de aproximadamente 20 milhões de litros de diesel em 2023 no Rio Grande do Norte. O prejuízo estimado com manutenção de veículos, pneus e equipamentos chegou a R$ 133 milhões, enquanto os custos operacionais do transporte aumentaram 37,7%.
A entidade calculou ainda que seriam necessários R$ 1,7 bilhão para recuperar as estradas do Estado, considerando ações emergenciais, manutenção, restauração e reconstrução.
O próprio DER reconheceu a dimensão do problema
A situação apontada pela CNT encontrou respaldo em um levantamento feito pelo próprio Governo do Rio Grande do Norte.
Em abril de 2024, um relatório de monitoramento elaborado pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RN), a pedido da Controladoria-Geral do Estado, apontou que 1.243 dos 3.379 quilômetros da malha rodoviária estadual analisada estavam classificados como ruins ou péssimos. O número correspondia a 37,11% da extensão avaliada.
O documento também registrava 1.489 quilômetros em condição regular, 365 quilômetros em situação boa e 284,4 quilômetros classificados como ótimos.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pelo Estado: mais de um terço da malha avaliada pelo próprio DER estava em condições ruins ou péssimas naquele momento.
Reclamações se espalharam pelo interior
Os problemas também foram registrados em diferentes regiões do Estado.
Em abril de 2023, moradores denunciaram as condições das RN-016 e RN-404, com imagens mostrando trechos tomados por buracos. Um morador afirmou que a RN-404, ligação entre o Vale do Açu e a região de Pedra Grande, estava abandonada havia mais de cinco anos. O Governo do Estado reconheceu que as duas rodovias estavam entre as prioridades de recuperação.
Na ocasião, o governo anunciou que havia planejado intervenções em diversos trechos da malha estadual. O cronograma previa ações nos sete distritos rodoviários do Estado e investimentos de R$ 150 milhões entre 2023 e 2024, com recursos estaduais.
O problema, portanto, não ficou restrito a uma única região. As reclamações atingiram rodovias utilizadas para transporte de passageiros, escoamento da produção, acesso a municípios e deslocamentos turísticos.
Governo ampliou investimentos, mas tamanho da demanda expôs problema acumulado
A partir de 2024, o Estado passou a executar um programa de recuperação em escala maior. O governo anunciou uma primeira etapa com centenas de quilômetros de rodovias contemplados e recursos provenientes de operação de crédito.
O movimento foi ampliado em 2025, quando o Governo do RN lançou a segunda etapa do Programa de Restauração de Rodovias Estaduais, com R$ 621,5 milhões destinados à recuperação de 664,8 quilômetros distribuídos em 38 trechos.
A própria governadora Fátima Bezerra afirmou, no lançamento da segunda etapa, que o programa alcançaria mais de 2 mil quilômetros de estradas e que os trechos recuperados anteriormente apresentavam condições precárias havia muitos anos.
Os investimentos representam uma resposta do governo ao problema e precisam ser considerados no balanço da gestão. Mas os dados também mostram o tamanho da deterioração encontrada antes da execução das obras.
A pergunta sobre manutenção
A questão que permanece para o próximo governo não é apenas quanto será gasto para recuperar as RNs, mas como impedir que os mesmos trechos voltem a se deteriorar depois das obras.
A experiência dos últimos anos mostra que intervenções emergenciais e grandes programas de restauração podem recuperar quilômetros de pavimento, mas precisam ser acompanhados de manutenção permanente.
Para quem utiliza as rodovias diariamente, o problema aparece no aumento do tempo das viagens, no desgaste de veículos, no custo do transporte e nas dificuldades de acesso a municípios e regiões produtoras.
No cenário eleitoral de 2026, os números também colocam uma questão para Cadu Xavier (PT), candidato apoiado pela governadora Fátima Bezerra: se a proposta é dar continuidade ao atual projeto político, qual será a estratégia para garantir a conservação permanente das RNs e evitar que uma nova deterioração obrigue o Estado a repetir programas milionários de recuperação nos próximos anos?





