A repetição de falhas nos tomógrafos do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, principal unidade de urgência e emergência do Rio Grande do Norte, durante a gestão de Fátima Bezerra (PT), expôs problemas na manutenção e na renovação dos equipamentos. As interrupções comprometeram a realização de exames, obrigaram a transferência de pacientes para outros hospitais e levaram o Governo do Estado a anunciar uma compra de quase R$ 3 milhões, além da locação de um equipamento por R$ 75 mil mensais.
A situação ganhou destaque em setembro de 2025, quando os dois tomógrafos da unidade ficaram sem funcionar simultaneamente. O problema voltou a ocorrer em outubro e, em novembro, o serviço sofreu uma terceira interrupção em um intervalo de apenas dois meses, conforme informações divulgadas pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) e pela imprensa potiguar.
O histórico levanta questionamentos sobre o planejamento da manutenção e a demora na substituição de equipamentos essenciais para um hospital que recebe vítimas de acidentes, pacientes com traumatismos e pessoas que dependem de diagnósticos rápidos para iniciar o tratamento.
Cronologia: as falhas registradas
1º de janeiro de 2024 — tomógrafo quebrado no início do ano
O SindSaúde/RN denunciou que o tomógrafo do Walfredo Gurgel estava quebrado desde a tarde de 1º de janeiro. Na mesma ocasião, o aparelho fixo de raio-X também apresentou defeito. Pacientes que precisavam de exames foram encaminhados ao Hospital Deoclécio Marques de Lucena, em Parnamirim, onde houve relatos de lotação e dificuldades para a realização de determinados procedimentos.
16 de setembro de 2025 — os dois aparelhos param
Os dois tomógrafos do Walfredo Gurgel ficaram fora de operação a partir de terça-feira, 16 de setembro. A Sesap confirmou o problema e informou que a empresa responsável pela manutenção havia sido acionada. Os pacientes que precisavam dos exames foram encaminhados ao Hospital Deoclécio Marques de Lucena, em Parnamirim.
15 de outubro de 2025 — nova constatação de inoperância
Em visita técnica ao hospital, a Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte constatou que os dois tomógrafos estavam novamente sem funcionar. A inspeção ocorreu 29 dias depois do episódio de setembro. Na ocasião, representantes do governo informaram que a compra de um novo equipamento estava em andamento e que o setor de tomografia passaria por manutenção.
10 de novembro de 2025 — terceira interrupção em dois meses
A Sesap confirmou uma nova paralisação dos exames. Segundo as informações divulgadas, um dos equipamentos havia apresentado falha, enquanto o outro estava em uma sala temporariamente inutilizada por causa de uma reforma. Era a terceira vez, em menos de dois meses, que o serviço ficava comprometido simultaneamente.
24 de janeiro de 2026 — nova falha após queda de energia
Mesmo após a chegada do tomógrafo alugado, o equipamento que estava em funcionamento apresentou defeito depois de uma queda de energia. O serviço foi interrompido durante a madrugada do sábado e retomado no domingo, segundo informações da Sesap divulgadas pela 98 FM Natal. Naquele momento, o aparelho alugado ainda dependia de adaptações na rede elétrica para começar a operar.
O levantamento reúne cinco registros de episódios ou constatações de falhas entre janeiro de 2024 e janeiro de 2026. Isso não significa necessariamente cinco quebras distintas: os registros de setembro, outubro e novembro de 2025 integram a sequência de três interrupções relatadas em um intervalo de dois meses.
Equipamentos antigos e custo para os cofres públicos
Em novembro de 2025, reportagem da Tribuna do Norte informou que o tomógrafo mais antigo havia sido fabricado em 2010 e já era considerado obsoleto pelo fabricante desde dezembro de 2024. O segundo aparelho havia sido fabricado em 2015. A Secretaria de Saúde reconheceu a necessidade de substituição dos equipamentos, que apresentavam falhas recorrentes.
A resposta anunciada pelo governo incluiu duas medidas:
- Compra de um novo tomógrafo: custo previsto de R$ 2,9 milhões.
- Aluguel de outro equipamento: R$ 75 mil por mês, em contrato com duração de um ano.
Considerando os valores divulgados, o aluguel pode representar R$ 900 mil ao longo de 12 meses. Somado à compra, o desembolso previsto para as duas medidas chega a R$ 3,8 milhões. Trata-se de uma estimativa baseada nos valores anunciados, e não de uma confirmação de que todo o montante já tenha sido efetivamente pago.
O aluguel foi anunciado como solução emergencial para evitar que o hospital dependesse exclusivamente de equipamentos antigos. Entretanto, a necessidade de contratar um aparelho temporário também evidencia o custo de manter o serviço funcionando enquanto a renovação tecnológica era realizada.
Pacientes transferidos e risco de atrasos no diagnóstico
O impacto das falhas ultrapassa a questão financeira. O Walfredo Gurgel é referência estadual no atendimento a vítimas de acidentes, traumas e outras emergências. Nesse contexto, a tomografia é fundamental para identificar lesões internas, hemorragias e outras condições que exigem decisões médicas rápidas.
Durante as interrupções, pacientes foram encaminhados para o Hospital Giselda Trigueiro, em Natal, e para o Hospital Deoclécio Marques de Lucena, em Parnamirim. Também houve utilização de serviços contratados da rede privada, conforme informações divulgadas em novembro de 2025.
O deslocamento entre unidades acrescenta etapas ao atendimento e pode gerar dificuldades logísticas para pacientes em estado grave. A repetição dos episódios reforça a importância de planejamento para manutenção preventiva, substituição de equipamentos antigos e garantia de continuidade dos exames em uma unidade que atende casos de urgência.
Renovação dos equipamentos só avançou após as paralisações
Em junho de 2026, o Walfredo Gurgel recebeu um tomógrafo adquirido pelo Ministério da Saúde, com capacidade estimada para realizar 4,5 mil exames mensais. Na ocasião, o equipamento estava em fase de instalação, enquanto outro aparelho, alugado pelo governo estadual, já funcionava desde dezembro de 2025.
A chegada do novo aparelho representa uma ampliação da estrutura disponível, mas não elimina o questionamento sobre a sequência de falhas que deixou o hospital sem tomógrafos em diferentes momentos. Também é importante verificar a situação operacional atual dos dois equipamentos antes de afirmar que a unidade continua dependendo exclusivamente de um aparelho alugado.
O histórico documentado mostra que, durante a gestão Fátima Bezerra, a unidade enfrentou interrupções repetidas em um serviço essencial. A aquisição e a locação anunciadas pelo governo foram respostas para recompor a capacidade de atendimento, mas o custo financeiro e os transtornos enfrentados pelos pacientes colocam em evidência a importância de evitar que problemas de manutenção e renovação tecnológica voltem a comprometer os exames no maior hospital público do estado.



