Candidato confirmou presença no debate da TV Tropical, sua equipe participou das reuniões preparatórias e aceitou as regras, mas ele desistiu na véspera e deixou o púlpito vazio

Confiança não se exige. Conquista-se. E, na política, ela começa justamente pelo valor que um candidato atribui à própria palavra. Por isso, a ausência de Álvaro Dias (PL) no debate da TV Tropical não deveria ser tratada simplesmente como mais uma mudança na agenda de uma campanha eleitoral. O episódio levanta uma pergunta que o eleitor tem todo o direito de fazer: se um compromisso previamente assumido pode ser abandonado na última hora, que valor terá a palavra dada depois da eleição?

Álvaro sabia do debate. Sua equipe participou das reuniões preparatórias, concordou com data, horário e regras e havia confirmado a participação. Ainda assim, na véspera, a campanha informou à emissora que ele não compareceria.

Enquanto Allyson Bezerra (União Brasil), Cadu de Lula (PT) e Professor Robério Paulino (PSOL) estavam diante das câmeras para responder perguntas e confrontar propostas para o Rio Grande do Norte, o lugar reservado a Álvaro permaneceu vazio. No mesmo período, o candidato cumpria agenda política em Natal ligada à passagem de Flávio Bolsonaro (PL) pela capital.

Alguém poderá argumentar: “Mas era apenas um debate de televisão”.

Não é tão simples.

A questão não está apenas no debate ao qual Álvaro deixou de comparecer. Está no compromisso que havia sido assumido antes dele. Existe uma diferença importante entre recusar previamente um convite e aceitar, participar das tratativas, concordar com as condições e, depois, desistir quando os demais envolvidos organizaram o evento contando com aquela palavra.

É aí que o episódio deixa de ser apenas uma questão de agenda e passa a tocar em algo muito mais importante para quem pretende governar um Estado: confiança.

Governar significa assumir compromissos todos os dias. Com servidores, municípios, fornecedores, instituições, investidores e, principalmente, com a população. Um governador precisará negociar, pactuar, prometer, assinar e cumprir. Evidentemente, nenhum episódio isolado permite prever tudo o que alguém fará durante quatro anos de governo. Mas os atos de uma campanha também são elementos legítimos para que o eleitor forme sua avaliação sobre os candidatos.

E são justamente os pequenos compromissos que muitas vezes revelam a importância que cada pessoa atribui à palavra empenhada.

Não se trata, portanto, de afirmar que faltar a um debate prova antecipadamente como Álvaro Dias governaria o Rio Grande do Norte. Trata-se de perguntar por que o eleitor deveria simplesmente ignorar um compromisso assumido e posteriormente abandonado.

Há ainda outra dimensão. Debate eleitoral não é favor concedido à emissora nem gentileza oferecida aos adversários. É uma oportunidade para que o eleitor compare candidatos, confronte propostas e veja como aqueles que pretendem governar reagem quando questionados fora do ambiente controlado de sua própria campanha.

Álvaro poderia ter recusado o convite desde o início. Poderia ter informado que sua agenda não permitiria a participação. O problema político está justamente no caminho escolhido: confirmou, participou das tratativas por meio de sua equipe e depois não apareceu.

Seu púlpito vazio acabou dizendo algo sem que ele precisasse pronunciar uma única palavra.

Na política, candidatos pedem ao eleitor um voto de confiança. Pedem que milhões de pessoas acreditem em promessas que somente poderão ser cobradas depois da eleição. Por isso, coerência entre palavra e atitude não é detalhe.

É requisito para construir credibilidade.

No fim das contas, a questão deixada pelo debate da TV Tropical não é simplesmente por que Álvaro Dias faltou.

É outra, muito mais incômoda: se a palavra dada durante uma campanha pode perder valor quando aparece outra prioridade, por que o eleitor deveria acreditar que será diferente quando essa palavra vier acompanhada de uma promessa de governo?