Depois de sete anos no coração do governo Fátima Bezerra, Cadu Xavier tenta chegar ao Governo do RN agarrado ao nome de Lula. O problema é que marketing pode mudar um nome, mas não apaga uma biografia.

Tem alguma coisa faltando no nome de Cadu de Lula.

Falta Fátima.

Carlos Eduardo Xavier passou sete anos dentro do governo Fátima Bezerra. Não como figurante, assessor de segundo escalão ou ocupante de uma pasta sem peso. Cadu esteve no coração financeiro da administração, primeiro na área tributária e depois no comando da Secretaria da Fazenda.

Foi um dos homens fortes do governo que agora pretende suceder.

Mas começou a campanha e aconteceu uma transformação curiosa: o Cadu de Fátima virou Cadu de Lula.

Fátima sumiu.

Lula apareceu.

E essa troca de sobrenome político talvez diga mais sobre a campanha petista do que muitos discursos.

Não é difícil entender a estratégia. Lula é eleitoralmente forte no Rio Grande do Norte. Colar sua imagem ao presidente significa tentar transportar essa popularidade para a disputa estadual.

A questão é por que Cadu não demonstra o mesmo entusiasmo para carregar o nome da governadora a quem serviu durante sete anos.

Se o governo Fátima fosse um cartão de visitas eleitoral, seria natural esperar o contrário. Cadu poderia apresentar-se como o homem que ajudou a construir aquela administração, reivindicar abertamente sua continuidade e transformar a experiência ao lado da governadora em uma das principais credenciais da candidatura.

Mas não é isso que sua identidade eleitoral sugere.

O candidato prefere olhar para Brasília.

Cadu estava lá

Existe uma dificuldade incontornável nessa tentativa de separação.

Cadu não pode apresentar-se como alguém que acaba de chegar para resolver os problemas do Rio Grande do Norte.

Ele estava lá.

Estava no governo quando as despesas com pessoal do Executivo ultrapassaram o limite estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Estava no núcleo econômico durante os problemas de caixa enfrentados pelo Estado.

Estava lá enquanto servidores e categorias cobravam pagamentos e enquanto a gestão era pressionada por dificuldades financeiras.

E estava no governo durante anos em que a educação pública potiguar continuou apresentando indicadores preocupantes.

Cadu tem todo o direito de explicar cada um desses pontos. Pode argumentar que recebeu um Estado em situação difícil, apontar avanços, responsabilizar problemas históricos, destacar efeitos da pandemia ou defender as decisões tomadas pela administração.

O que fica difícil é fazer outra coisa: reivindicar sete anos de experiência quando essa experiência serve como currículo e esquecer os mesmos sete anos quando chega a hora de prestar contas.

Porque experiência de governo não pode ser usada pela metade.

Se Cadu ajudou a construir os acertos, também estava na sala quando os problemas chegaram.

O conveniente desaparecimento de Fátima

É justamente por isso que o desaparecimento político de Fátima da identidade de Cadu chama tanta atenção.

Não estamos falando de uma governadora que resolveu apoiar um candidato independente no final do mandato.

Estamos falando do candidato que saiu de dentro do seu próprio governo.

Cadu foi secretário.

Participou das decisões.

Comandou uma das áreas mais estratégicas da administração.

Construiu sua projeção pública dentro daquele governo.

E agora parece existir um esforço para convencer o eleitor a enxergá-lo prioritariamente como “o candidato de Lula”.

É uma associação muito mais confortável.

Lula está em Brasília e oferece capital eleitoral.

Fátima está no Rio Grande do Norte e oferece uma administração concreta para ser julgada.

Com Lula, Cadu pode falar de identidade política, programas federais, investimentos e parceria com o presidente.

Com Fátima, precisa falar de folha de pagamento, equilíbrio fiscal, serviços públicos, educação e dos problemas acumulados durante os anos em que ele próprio ocupava uma cadeira no governo.

Talvez esteja aí a explicação para essa preferência tão explícita por um padrinho e tão discreta pela outra.

Nem tudo cabe debaixo do tapete

Existem ainda episódios da passagem de Cadu pelo governo que merecem explicação, como os questionamentos envolvendo a atualização de remuneração da carreira dos auditores fiscais durante a pandemia — carreira à qual ele pertence — e a viagem oficial à Europa que posteriormente gerou controvérsia após registros pessoais em Roma.

São episódios que possuem explicações e versões próprias e não precisam ocupar o centro desta discussão.

Porque existe uma questão muito maior.

Cadu não precisa responder apenas pelo que fez como secretário. Precisa dizer qual é exatamente sua relação com o legado político que pretende suceder.

É continuidade?

Então assuma.

É ruptura?

Então explique de que governo pretende romper, considerando que passou sete anos dentro dele.

É renovação?

Então diga em que momento o homem que comandou a Fazenda deixou de representar a administração da qual fazia parte.

Não dá para ser governo na fotografia das realizações e visitante na fotografia dos problemas.

O sobrenome que desapareceu

Talvez o maior mérito do nome “Cadu de Lula” seja também aquilo que ele revela involuntariamente.

Ninguém precisou chamar Lula para dentro da identidade eleitoral de Cadu.

Foi uma escolha.

E toda escolha política também é uma renúncia.

Ao escolher Lula como sobrenome eleitoral, Cadu colocou em segundo plano justamente a personagem mais diretamente ligada à sua trajetória administrativa: Fátima Bezerra.

Isso permite uma pergunta bastante simples:

se o governo Fátima é uma herança política tão boa, por que Cadu parece tão pouco interessado em ser reconhecido como seu herdeiro?

O candidato pode tentar nacionalizar a disputa.

Pode multiplicar fotografias com Lula.

Pode repetir o nome do presidente.

Pode construir sua campanha em torno dessa associação.

Só existe uma coisa que não pode fazer:

reescrever os últimos sete anos.

Porque antes de existir Cadu de Lula, existiu Cadu de Fátima.

Foi Fátima quem lhe deu espaço no governo. Foi no governo dela que ganhou protagonismo. Foi como secretário dela que construiu o currículo administrativo que hoje apresenta ao eleitor.

Lula pode ser o sobrenome escolhido para a urna.

Fátima continua sendo parte da biografia.

E talvez seja justamente essa a contradição mais incômoda da candidatura: Cadu quer herdar o governo de Fátima, mas prefere herdar o nome de Lula.

 

 

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