Álvaro Dias rejeita a imagem de político que entrega obras inacabadas, mas o Hospital Municipal de Natal insiste em transformar essa discussão em uma questão de fatos — e não de apelidos.
Há obras públicas que inauguram serviços. Outras inauguram placas. O Hospital Municipal de Natal corre o risco de entrar para a história política da capital potiguar como símbolo dessa segunda categoria.
Álvaro Dias não gosta de ser associado à imagem de político que entrega obras inacabadas. O problema é que reputações políticas não são construídas apenas pelo que seus protagonistas dizem sobre si mesmos. São construídas pelos fatos.
E o Hospital Municipal é um fato difícil de contornar.
A primeira etapa foi inaugurada por Álvaro em 30 de dezembro de 2024, praticamente na despedida do mandato. Houve solenidade, placa e discursos. O que não veio junto foi aquilo que deveria ser a essência de qualquer hospital: atendimento à população.
Às vésperas da inauguração, a própria Secretaria Municipal de Saúde informava que a primeira etapa estava 92% concluída. Faltavam instalações e sistemas essenciais para o pleno funcionamento.
Passaram-se meses. Depois, mais de um ano. E a obra continuou sendo obra.
Agora surge mais um capítulo da novela. A gestão do prefeito Paulinho Freire prorrogou novamente o prazo de execução dos serviços da primeira etapa. Pelo 8º termo aditivo, são mais 180 dias.
Aquilo que ganhou cerimônia de inauguração no fim de 2024 atravessa 2026 cercado por prazos, serviços pendentes e aditivos.
Afinal, o que significa inaugurar um hospital?
Se inaugurar significa realizar uma solenidade, descerrar uma placa e apresentar uma estrutura física, o Hospital Municipal foi inaugurado.
Mas, se significa colocar uma unidade de saúde à disposição da população, com estrutura, equipamentos, profissionais e capacidade de receber pacientes, então essa “inauguração” merece ser questionada.
Um hospital não existe para produzir fotografias. Existe para produzir atendimento.
Não é a placa que desafoga uma UPA. Não é o discurso que abre um leito. Não é a cerimônia que realiza uma cirurgia. Quem precisa do SUS não procura uma obra inaugurada. Procura uma porta aberta.
E a sucessão de novos prazos transformou aquela solenidade de dezembro de 2024 em um problema político que acompanha Álvaro Dias.
Mas seria injusto colocar toda a responsabilidade atual exclusivamente sobre o ex-prefeito. Desde janeiro de 2025, quem governa Natal é Paulinho Freire. Sua gestão herdou o hospital e seus problemas, mas também herdou a obrigação de resolvê-los.
Depois de mais de um ano e meio, a atual administração também precisa responder: quanto já foi gasto? Quanto falta pagar? A nova prorrogação terá impacto financeiro? E, principalmente, quando o hospital estará efetivamente funcionando?
O Hospital Municipal deixou de ser apenas uma obra. Virou um teste de credibilidade política.
Álvaro pode rejeitar a pecha de político das obras inacabadas. Tem todo o direito. Mas há uma regra simples na vida pública: uma narrativa só resiste enquanto os fatos conseguem sustentá-la.
E cada novo prazo, cada serviço pendente e cada aditivo publicado devolvem a Natal a mesma pergunta:
afinal, o que exatamente foi inaugurado em dezembro de 2024?
Porque placas podem inaugurar prédios.
Só atendimento inaugura um hospital.
