Operação que investiga o desvio de mais de R$ 37 milhões expõe uma contradição incômoda: enquanto Natal e o Estado ainda enfrentam gargalos históricos na saúde, recursos que deveriam atender pacientes podem ter abastecido um esquema milionário.

A Operação Oxigênio Financeiro, deflagrada nesta quinta-feira (27) pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte, vai muito além de mais um caso policial. Ela coloca uma pergunta inevitável no debate político: como podem faltar hospitais, leitos e atendimento enquanto milhões destinados à saúde desaparecem pelo caminho?

Segundo o MPRN, mais de R$ 37 milhões em recursos do Governo do Estado e da Prefeitura de Natal teriam sido desviados por meio de um esquema envolvendo serviços de assistência domiciliar, o chamado home care.

As investigações apontam que laudos médicos teriam sido superdimensionados para obter decisões judiciais obrigando o poder público a custear tratamentos. Depois, empresas ligadas ao mesmo grupo apresentariam orçamentos combinados, simulando concorrência e concentrando os contratos.

Parte do dinheiro, ainda segundo o Ministério Público, teria sido utilizada para manter negócios como cafeteria, salão de beleza e clínica popular. Pessoas teriam sido usadas como “laranjas” para ocultar os verdadeiros proprietários. Uma cooperativa também é investigada por supostamente descumprir o piso da enfermagem e direitos trabalhistas.

Os investigados têm direito à defesa, e as responsabilidades ainda deverão ser estabelecidas pela Justiça. Mas a dimensão do caso exige respostas também do poder público.

O contraste com os hospitais

Em Natal, o Hospital Municipal tornou-se símbolo dessa contradição. A unidade foi oficialmente entregue em dezembro de 2024, nos últimos dias da gestão Álvaro Dias, mas ainda não funciona plenamente. A primeira etapa da obra teve seu prazo prorrogado até fevereiro de 2027.

A pergunta é simples: de que adianta inaugurar um hospital se a população continua esperando para utilizá-lo em sua capacidade prometida?

No Governo do Estado, o Hospital Metropolitano de Parnamirim também acumulou anos de expectativa. A obra finalmente começou em 2026, depois de a unidade ter sido apresentada como uma das grandes respostas para desafogar a rede estadual, especialmente o Walfredo Gurgel.

Reconhecer que a construção começou não elimina a cobrança: entre a promessa política e um hospital funcionando existe uma distância que o paciente conhece muito bem.

R$ 37 milhões não são apenas um número

A Operação Oxigênio Financeiro cumpriu 13 mandados de busca e apreensão e recolheu documentos, dinheiro em espécie sem comprovação de origem, joias, celulares e computadores.

Mas a investigação precisa produzir uma resposta que vá além dos eventuais responsáveis pelo esquema.

Estado e Prefeitura deveriam explicar como funcionavam os mecanismos de fiscalização desses pagamentos, quem acompanhava os contratos e como movimentações dessa dimensão puderam ocorrer sem serem interrompidas antes.

Isso não significa atribuir responsabilidade a gestores que não são apontados pelo Ministério Público como integrantes do esquema. Significa cobrar transparência sobre dinheiro público.

Porque R$ 37 milhões na saúde não são apenas uma cifra contábil.

São recursos que poderiam estar financiando consultas, medicamentos, equipamentos, profissionais e atendimento para quem depende exclusivamente do SUS.

Enquanto Natal espera seu Hospital Municipal funcionar plenamente e o Rio Grande do Norte aguarda o Hospital Metropolitano sair definitivamente da promessa para virar atendimento, a Operação Oxigênio Financeiro deixa uma pergunta que precisa ser respondida:

quantos problemas da saúde potiguar poderiam ter sido enfrentados com os mais de R$ 37 milhões que o Ministério Público afirma terem sido desviados?

No Rio Grande do Norte, a saúde já espera demais.

O que ela não pode é continuar pagando a conta da ineficiência pública e de quem transforma a necessidade dos pacientes em oportunidade para ganhar dinheiro.