O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Cadu Xavier (PT) passou a defender, durante sabatina da Fecomércio, uma política de maior controle sobre o crescimento da folha estadual para recuperar a capacidade de investimento do Estado. A proposta, porém, coloca o petista diante de uma cobrança inevitável: Cadu esteve justamente no centro da gestão das finanças do RN durante boa parte do período em que o problema se agravou.
Cadu comandou a Secretaria Estadual da Fazenda durante anos do governo Fátima Bezerra (PT) e deixou o cargo somente em março de 2026 para disputar o Governo. Agora, na condição de candidato, afirma que será necessário limitar a expansão das despesas com pessoal para abrir espaço no orçamento.
A regra defendida por ele estabelece que o crescimento da despesa com pessoal fique limitado a 80% da evolução da Receita Corrente Líquida. Na avaliação do candidato, a medida permitiria reduzir gradualmente o peso da folha e recuperar a capacidade de investimento.
O discurso, entretanto, evidencia uma contradição política. Se controlar o crescimento da folha é uma das soluções para o problema fiscal do RN, Cadu precisa explicar por que essa estratégia não foi suficiente para resolver a situação enquanto ele próprio comandava a Secretaria da Fazenda.
Cadu agora promete solução para problema que acompanhou de perto
O cenário fiscal que o candidato apresenta como desafio para o futuro não surgiu durante a campanha. Cadu acompanhou diretamente a evolução das contas estaduais enquanto esteve no governo.
No primeiro quadrimestre de 2026, a despesa com pessoal do Executivo alcançou 56,12% da Receita Corrente Líquida Ajustada, acima do limite de 49% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O índice colocou o Rio Grande do Norte entre os estados com maior comprometimento da receita com a folha.
Ainda assim, durante sua passagem pela Fazenda, Cadu sustentou que havia ocorrido uma redução desse comprometimento. Agora, ao disputar o governo, apresenta novamente o controle da folha como uma das principais ferramentas para recuperar os investimentos.
A questão é que o candidato conhece o problema por dentro e também fez parte da administração responsável por enfrentá-lo.
Investimentos ficaram comprimidos
A pressão da folha tem efeito direto sobre a capacidade do Estado de investir em áreas como saúde, educação, segurança e infraestrutura.
A própria argumentação de Cadu parte dessa relação. Segundo ele, reduzir o comprometimento com pessoal permitiria ampliar os recursos disponíveis para investimentos.
Na prática, porém, o Estado chega ao período eleitoral ainda enfrentando dificuldades fiscais e com despesas obrigatórias elevadas. O cenário enfraquece a tentativa de Cadu de se apresentar simplesmente como alguém que descobriu agora a necessidade de reorganizar as contas.
Ele não chega à eleição como um observador externo. Foi secretário da Fazenda e participou das decisões que levaram o Estado até o atual quadro financeiro.
Previdência é outro problema deixado para trás
A situação da Previdência estadual reforça a cobrança. O sistema encerrou 2025 com déficit financeiro superior a R$ 2 bilhões, enquanto o Tesouro precisa realizar aportes mensais para garantir o pagamento de aposentadorias e pensões.
Cadu defende um plano de reorganização previdenciária elaborado ainda durante o governo Fátima. A proposta prevê mudanças na contribuição patronal, mas evita aumento da alíquota dos servidores.
Mais uma vez, a promessa de reorganização aparece durante a campanha, embora o candidato tenha participado diretamente da gestão que elaborou e conduziu as políticas fiscais do Estado.
De secretário a candidato que promete mudar o próprio modelo
A candidatura de Cadu Xavier tem como um dos principais argumentos a experiência adquirida dentro do governo. O problema é que essa mesma experiência pode se transformar em um dos maiores pontos de cobrança durante a campanha.
Cadu conhece as contas do RN porque ajudou a administrá-las.
Por isso, ao prometer controlar a folha, reorganizar a Previdência e recuperar a capacidade de investimento, o candidato terá de responder por que essas medidas não produziram resultados mais consistentes durante sua passagem pela Fazenda.
A campanha petista tenta apresentar Cadu como o nome preparado para reorganizar as finanças estaduais. Mas existe uma pergunta que dificilmente ficará fora do debate eleitoral: se ele participou da condução da política econômica do governo Fátima durante anos, por que o RN ainda enfrenta justamente os problemas fiscais que agora ele promete resolver?




