O eleitor não polarizado, que representa 27% do país, passou a ser tratado como alvo central na disputa presidencial de 2026. Esse grupo não se identifica nem com o antipetismo nem com o antibolsonarismo e pode ser decisivo em uma eventual disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e outros nomes ao Palácio do Planalto.
Recortes inéditos da pesquisa Genial/Quaest divulgados pelo jornal O Globo mostram que os não polarizados têm maior presença entre os eleitores mais pobres e entre os que se declaram independentes, sem alinhamento com direita ou esquerda. Trata-se de um segmento considerado volátil, menos mobilizado por identidades políticas rígidas e mais atento a temas concretos, como renda, emprego, custo de vida e impostos.
No momento, a pesquisa indica que esse eleitorado tem se inclinado mais a Lula. Entre os eleitores neutros, a aprovação do governo aparece em 51%, contra 40% de desaprovação. A vantagem, no entanto, não é vista como consolidada.

(Foto: Reprodução/O Globo)
Voto depende de resultado concreto
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, afirmou que a leitura sobre esse grupo exige cautela, já que o levantamento não detalha todas as motivações específicas do voto. Ainda assim, ele avalia que os dados sugerem um comportamento mais pragmático.
“O que a estrutura do dado sugere, e aí é leitura minha, é que, por não responderem ao apelo ideológico, esses eleitores tendem a decidir por entrega concreta: renda, custo de vida, percepção de melhora de vida. É o eleitor que responde a resultado de governo, não a narrativas”, afirmou Nunes.
Segundo ele, o desempenho atual de Lula entre os neutros é uma boa notícia para o governo, mas pode mudar conforme a conjuntura econômica.
“Por ser um eleitor que responde à conjuntura, esse saldo positivo é reversível. Lula melhorou agora, mas é exatamente o grupo que pode virar de novo se a percepção econômica mudar. É uma boa notícia para o governo, mas não é um voto consolidado”, pontuou.
Mais de um terço fora das camisas
Na avaliação de Felipe Nunes, os não polarizados formam a parcela mais disputável do eleitorado porque não estão bloqueados previamente contra nenhum dos dois polos. Esse contingente se soma a outro grupo, de cerca de 10%, que rejeita tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro.
“Não está ‘travado’ contra nenhum dos lados de antemão. Nesse sentido, é o pedaço mais genuinamente disputável do eleitorado, e soma-se a ele a fatia dos 10% que rejeitam os dois polos. Mais de um terço do país não está preso a nenhuma das duas camisas”, declarou.
A defesa do fim da escala 6×1 aparece como exemplo de pauta concreta capaz de influenciar esse tipo de eleitor. Para quem não se vincula fortemente a partidos ou lideranças, medidas ligadas ao trabalho, ao orçamento doméstico e à qualidade de vida tendem a pesar mais do que discursos ideológicos.
Rejeições mostram diferenças por gênero
A série histórica da Genial/Quaest mostra estabilidade nas principais classificações do eleitorado, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Em números absolutos, o antipetismo chegou em junho ao menor patamar da série, com 29%. O antibolsonarismo aparece em 31%.
Entre as mulheres, os neutros representam 28%. Entre os homens, são 26%. A diferença maior aparece nos grupos de rejeição: entre elas, o antibolsonarismo chega a 35%; entre eles, o antipetismo é a rejeição mais forte, com 32%.
O cenário reforça um dos principais desafios das campanhas de 2026: conquistar um eleitorado menos fiel, mais pragmático e mais sensível ao impacto direto das políticas públicas. Em uma disputa marcada pela força dos polos, quem conseguir falar com esse grupo pode ganhar vantagem na reta decisiva da eleição.




