Sigla do Comando Vermelho pichada em muro de comunidade (Foto: Wikimedia Commons)

O Comando Vermelho (CV) vem ampliando sua presença no Rio Grande do Norte enquanto o Sindicato do Crime (SDC) perde integrantes e territórios. Segundo o promotor de Justiça Sílvio Brito, da Promotoria de Justiça de Delitos de Organizações Criminosas, a facção potiguar atravessa um processo de enfraquecimento que pode levar ao seu desaparecimento nos próximos anos.

Em entrevista à TV Tropical, o promotor afirmou que integrantes do Sindicato têm migrado para o Comando Vermelho, movimento conhecido entre os criminosos como “rasgar a camisa”.

“Cada vez tem mais elementos passando para o Comando Vermelho. É uma tendência de que essa facção domine o Rio Grande do Norte e, ao mesmo tempo, leve ao desaparecimento do Sindicato do Crime”, declarou.

Sílvio Brito estima que, mantido o ritmo atual de deserções, o Sindicato poderá perder relevância em um período de três a cinco anos.

“Seguindo essa marcha, acredito que, em não mais que três, quatro ou cinco anos, o Sindicato estará tão enfraquecido que quase não vamos mais ouvir falar dele, porque o volume de deserções é realmente muito alto”, afirmou.

Disputa pode elevar a violência

De acordo com o promotor, o avanço territorial do Comando Vermelho pode intensificar os confrontos entre criminosos e provocar novos episódios de violência no estado.

“A tendência que nós vislumbramos é que haja realmente um recrudescimento de enfrentamentos entre criminosos e, eventualmente, entre criminosos e a polícia, mas principalmente entre criminosos”, disse.

O Rio Grande do Norte já enfrentou conflitos violentos entre facções, especialmente durante o Massacre de Alcaçuz, em 2017, quando pelo menos 27 detentos morreram. A disputa também teve reflexos fora do sistema prisional, com homicídios, confrontos e ataques a ônibus.

Segundo Brito, o Comando Vermelho deixou de atuar apenas como parceiro de grupos regionais e passou a buscar o controle direto dos territórios onde mantém influência.

“O Comando Vermelho era parceiro do Sindicato do Crime no Rio Grande do Norte e de outras facções locais em outros estados. Mas, de cinco ou seis anos para cá, ganhou muita envergadura e deixou de ser parceiro para querer dominar esses territórios”, explicou.

Estrutura nacional atrai integrantes

O promotor atribui o crescimento do CV ao acesso da organização a rotas internacionais do tráfico de drogas, armas de grosso calibre e estruturas de proteção para criminosos procurados.

Segundo ele, a facção consegue oferecer aos integrantes uma rede de apoio superior à mantida pelo Sindicato do Crime, inclusive com a possibilidade de esconder foragidos em comunidades controladas pelo grupo no Rio de Janeiro.

Brito também afirmou que o Comando Vermelho possui capacidade para deslocar criminosos entre diferentes estados para cometer assassinatos, dificultando a identificação dos envolvidos.

“Você passa a ter um crime ainda mais sem rosto. É um exército fantasma que o Comando Vermelho é capaz de operar”, alertou.

Domínio territorial e cobrança de taxas

Além do tráfico de drogas, Sílvio Brito apontou uma mudança na atuação das organizações criminosas, que estariam ampliando o controle sobre atividades econômicas em bairros e comunidades.

Segundo o promotor, os grupos passam a cobrar taxas de comerciantes, trabalhadores e moradores em troca de uma suposta proteção, reproduzindo um modelo semelhante ao das máfias.

Para ele, essa modalidade de extorsão pode se tornar uma das principais fontes de receita do crime organizado nos próximos anos, por oferecer ganhos maiores e menor risco de prisão do que o comércio direto de drogas.

“Daqui a cinco anos, a gente pode ter apenas o Comando Vermelho exercendo esse tipo de domínio territorial e extorquindo todo mundo”, afirmou.

O promotor ressaltou, porém, que essa avaliação representa uma projeção baseada nas investigações e nos processos acompanhados pelo Ministério Público.

WhatsApp como ferramenta do crime

Sílvio Brito também afirmou que o WhatsApp se tornou o principal meio de comunicação das organizações criminosas. Segundo ele, grupos no aplicativo são usados para planejar homicídios, tráfico de drogas, transporte de armas e os chamados tribunais do crime.

O promotor defendeu mecanismos legais que permitam o monitoramento em tempo real de conversas, mediante autorização judicial, com o objetivo de impedir crimes antes que sejam executados.

Segundo Brito, a extração das mensagens após a apreensão dos aparelhos ajuda a comprovar delitos, mas muitas vezes ocorre quando os homicídios já foram praticados, as drogas entregues ou as armas deslocadas.

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