Foto: Divulgação prefeitura de Natal

O projeto do Parque Linear na Avenida Engenheiro Roberto Freire, anunciado pela Prefeitura de Natal como uma das principais intervenções urbanísticas da gestão Paulinho Freire, sofreu uma mudança significativa. A proposta de implantar o equipamento acompanhando praticamente toda a extensão da área cedida pelo Exército foi abandonada e deverá dar lugar a um projeto mais concentrado em uma área específica.

A mudança ocorre depois de mais de um ano de impasse entre a Prefeitura e o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema) sobre a possibilidade de implantação do parque dentro dos limites do Parque das Dunas. O novo desenho deverá ficar concentrado nas proximidades da Comjol e da antiga Universidade Potiguar, em uma área de aproximadamente 16 hectares.

O recuo chama atenção porque a administração municipal chegou a sustentar publicamente que manteria o projeto original. Em abril deste ano, a Prefeitura informou que o Parque Linear continuava entre as prioridades da gestão e que pretendia iniciar as obras ainda em 2026. Na ocasião, o então secretário de Meio Ambiente e Urbanismo, Thiago Mesquita, defendia a continuidade da proposta e afirmava que o projeto respeitaria o zoneamento ambiental.

Agora, a própria Prefeitura admite a necessidade de adequar a concepção inicial às regras ambientais estabelecidas para o Parque das Dunas.

Prefeitura já havia assinado plano que impôs restrições

O aspecto mais delicado do episódio é que as limitações apontadas pelo Idema não surgiram agora. O Plano de Manejo do Parque das Dunas, atualizado e publicado em 2025, estabelece restrições justamente para parte da área onde a Prefeitura pretendia implantar o parque linear.

Segundo o Idema, cerca de 60% dos 10 hectares inicialmente previstos estavam em uma área classificada como Zona Primitiva 3, na qual são vedadas construções permanentes e atividades que provoquem grande fluxo de visitantes. A Prefeitura, por meio da Semurb, participou do Conselho Gestor que aprovou a revisão do plano.

Ou seja, o Município que agora precisa adaptar o projeto às regras ambientais é o mesmo que participou formalmente da construção e aprovação do documento que estabeleceu essas regras.

A situação expõe uma dificuldade de planejamento da gestão Paulinho Freire. A Prefeitura anunciou o parque, formalizou a cessão de uma área de mais de 100 mil metros quadrados com o Exército e passou a defender publicamente a implantação do equipamento antes de superar os questionamentos ambientais que envolviam o terreno.

Thiago Mesquita chegou a contestar posição do Idema

O recuo também contrasta com o discurso adotado pelo ex-secretário Thiago Mesquita durante o período mais intenso da disputa com o órgão ambiental.

Em outubro de 2025, Mesquita classificou como “precipitado” afirmar que o Parque Linear seria inviável. O então titular da Semurb argumentava que ainda não existia um projeto executivo nem estudos ambientais suficientes para uma conclusão definitiva sobre a compatibilidade da intervenção com o Parque das Dunas.

Mais do que isso, Mesquita defendia que, do ponto de vista técnico e jurídico, um parque linear poderia ser implantado dentro de uma unidade de conservação, desde que observadas as regras do plano de manejo. Ele usava o próprio Bosque dos Namorados, localizado dentro do Parque das Dunas, como exemplo de equipamento de lazer existente em área de proteção integral.

Naquele momento, a posição da Prefeitura era de avançar na discussão e amadurecer o projeto, enquanto o Idema sustentava que o desenho apresentado não era compatível integralmente com o zoneamento da unidade de conservação.

De projeto ao longo da avenida a espaço concentrado

A mudança agora anunciada altera justamente a característica que dava nome e identidade à proposta original.

O projeto apresentado pela Prefeitura previa um parque linear de aproximadamente 10 hectares acompanhando a Roberto Freire, aproveitando a configuração longitudinal do terreno cedido pelo Exército. O novo formato abandona essa concepção e concentra o equipamento em uma área delimitada, próxima à Comjol e à antiga UnP.

Embora a nova área tenha cerca de 16 hectares, portanto maior que os 10 hectares inicialmente anunciados, ela possui uma configuração diferente e deverá se aproximar do modelo do Bosque dos Namorados, com equipamentos de lazer, esporte e cultura em uma região considerada mais adequada pelo zoneamento ambiental.

A Prefeitura ainda precisa definir quais equipamentos serão efetivamente instalados no novo projeto. O prefeito Paulinho Freire deverá apresentar a nova concepção à população nos próximos dias.

Recuo coloca projeto novamente no ponto de partida

A alteração representa, na prática, uma derrota da concepção original apresentada pela gestão municipal. Depois de anunciar uma grande intervenção urbana para a Roberto Freire, enfrentar o Idema e sustentar que havia viabilidade para o projeto, a Prefeitura terminou obrigada a reduzir e redesenhar a proposta.

O episódio também evidencia que o projeto anunciado inicialmente estava longe de possuir todas as definições técnicas necessárias. A própria administração agora terá de compatibilizar a nova área com o Plano de Manejo e ainda resolver uma questão fundiária, já que o terreno cedido pelo Exército não coincide integralmente com a área indicada pelo novo zoneamento. Será necessário um aditivo ao acordo de cessão.

Assim, o que começou como uma promessa de transformação de toda a extensão da Roberto Freire em um grande parque linear termina, por enquanto, em uma proposta mais restrita e condicionada às regras ambientais que a própria Prefeitura já havia aceitado.

Para a gestão Paulinho Freire, fica o desafio de explicar por que um projeto apresentado com tanta segurança precisou ser redimensionado depois de um longo embate com o órgão ambiental e por que a administração municipal não conseguiu resolver essas questões antes de vender a ideia do parque à população.

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