Uma declaração do senador Styvenson Valentim (Podemos) durante sabatina na Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (FIERN) chamou atenção pelo tom utilizado para tratar da mão de obra no interior do Estado. Ao discutir os desafios da construção civil, o parlamentar afirmou que existe dificuldade para encontrar trabalhadores porque, segundo ele, “o caba não quer trabalhar”.
A declaração merece ser analisada com cautela, principalmente por reduzir uma questão complexa do mercado de trabalho potiguar a uma suposta falta de disposição dos trabalhadores. O problema da empregabilidade no interior envolve fatores como qualificação profissional, salários, condições de trabalho, deslocamento, informalidade e a própria capacidade da economia local de oferecer oportunidades estáveis.
Durante a sabatina, Styvenson afirmou que a construção civil estaria recorrendo a novas tecnologias justamente diante da dificuldade de contratar trabalhadores. Ele citou o uso de formas de PVC preenchidas com concreto e disse que a metodologia permitiria acelerar a construção de escolas e creches.
O senador, porém, foi além ao afirmar que o trabalhador “não vai trabalhar” e que “trabalha de terça a quarta. O resto é tomando cachaça”. A generalização, especialmente quando direcionada aos trabalhadores do interior potiguar, acaba transformando um problema econômico e social em uma questão de comportamento individual.
A fala também provoca uma pergunta inevitável: se existe dificuldade para preencher vagas, por que o debate não deveria se concentrar em como qualificar, remunerar e atrair trabalhadores para esses postos? Culpar genericamente quem está em busca de emprego pouco contribui para encontrar uma solução concreta.
O próprio senador reconheceu, no início de sua argumentação, que educação ruim compromete o desenvolvimento e a ocupação de espaços competitivos. Esse ponto, inclusive, parece muito mais relevante para explicar parte das dificuldades enfrentadas pelo mercado de trabalho do que simplesmente afirmar que as pessoas não querem trabalhar.
A declaração ganha ainda mais peso por partir de um senador que busca a reeleição e que apresentou, na mesma sabatina, propostas para geração de empregos, atração de investimentos e expansão da atividade econômica no Rio Grande do Norte. Nesse contexto, seria esperado um diagnóstico mais amplo sobre os obstáculos enfrentados por trabalhadores e empresas.
Styvenson também defendeu investimentos em grandes projetos, como o Porto-Indústria Verde de Caiçara do Norte e a atração de data centers, além de mencionar um projeto que, segundo ele, poderia movimentar R$ 230 bilhões e gerar mais de 16 mil empregos.
O problema é que desenvolvimento econômico não se constrói apenas com tecnologia, grandes empreendimentos ou críticas ao trabalhador. É necessário criar condições para que o potiguar tenha qualificação, renda, estabilidade e perspectivas profissionais. Transformar uma dificuldade estrutural do mercado de trabalho em uma acusação generalizada contra quem vive no interior pode até render uma frase de efeito, mas está longe de oferecer uma resposta para o problema.
A fala de Styvenson, portanto, acabou chamando atenção não pela apresentação de uma solução para a falta de mão de obra, mas pela maneira simplista e depreciativa utilizada para explicar um fenômeno que exige políticas públicas, investimento em educação profissional e diálogo com trabalhadores e empresários.



