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O Ministério Público Eleitoral (MPE) identificou indícios de um “esquema organizado de produção e divulgação de pesquisas fraudulentas” em levantamentos eleitorais que colocaram o candidato Álvaro Dias (PL) na liderança da disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte.

A conclusão consta em parecer apresentado ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN). Segundo o documento, as suspeitas não estariam concentradas em apenas uma pesquisa, mas envolveriam um conjunto de levantamentos realizados entre abril e julho deste ano.

De acordo com o MPE, foram registradas 26 pesquisas sobre a disputa pelo Governo do Estado no período analisado. Dessas, 19 apontaram Allyson Bezerra (União Brasil) na liderança, enquanto sete apresentaram Álvaro Dias em primeiro lugar.

O Ministério Público afirma ter encontrado irregularidades nas sete pesquisas favoráveis ao candidato do PL, envolvendo os institutos Veritá, PNH/Affare, Consult, Ipsensus e Média.

MPE aponta repetição de problemas

Entre os elementos considerados suspeitos estão inconsistências na distribuição dos entrevistados por faixa de renda, problemas metodológicos e a participação recorrente de determinados profissionais em diferentes levantamentos.

O parecer também cita o estatístico Augusto da Silva Rocha, que teve o registro profissional suspenso por 12 meses pelo Conselho Regional de Estatística em 2023, e Thales da Silva Vale, sócio-administrador do instituto Média.

Segundo o documento, Thales teria ocupado anteriormente um cargo comissionado em um gabinete de comunicação municipal ligado ao grupo político de Álvaro Dias.

Para o Ministério Público, a reunião desses elementos pode indicar a existência de uma estrutura organizada destinada a produzir pesquisas capazes de influenciar a percepção dos eleitores.

Por isso, o órgão defendeu uma “apuração em amplitude máxima” do caso.

Pesquisa da Média é alvo de questionamentos

Um dos principais levantamentos analisados pelo MPE é a pesquisa RN-08092/2026, realizada pelo instituto Média Inteligência em Pesquisa e contratada pela Potengi Comunicação.

O levantamento apontou Álvaro Dias com 32,1% das intenções de voto, contra 27,5% de Allyson Bezerra e 18,1% de Cadu Xavier.

Segundo o parecer, 450 das 2 mil entrevistas teriam sido realizadas antes do período oficialmente informado à Justiça Eleitoral. Os questionários teriam sido aplicados em Natal no dia 2 de julho, enquanto o registro da pesquisa ocorreu no dia seguinte.

O MPE também encontrou inconsistências nas coordenadas de localização dos entrevistadores. Conforme o documento, os dados de GPS não corresponderiam aos municípios declarados no levantamento.

Em alguns casos, os registros indicariam deslocamentos em velocidades consideradas incompatíveis com trajetos terrestres. O parecer cita situações nas quais entrevistadores teriam percorrido dezenas de quilômetros em poucos minutos.

Ministério Público aponta possível preenchimento irregular

Outro ponto considerado grave pelo MPE envolve a distribuição de renda dos entrevistados.

Segundo o parecer, os percentuais registrados na base de dados teriam reproduzido com precisão incomum os números previstos no plano amostral.

O Ministério Público afirma que um teste estatístico apontou indícios de que os dados poderiam ter sido atribuídos de forma artificial, em vez de coletados diretamente com os entrevistados.

O órgão também identificou um padrão considerado atípico nos horários de início das entrevistas, além de intervalos semelhantes entre os questionários.

Para a Procuradoria, os elementos reunidos levantam a possibilidade de que parte da coleta tenha sido realizada de maneira diferente daquela declarada pelo instituto.

Caso pode chegar à esfera criminal

Além da representação eleitoral, o procurador encaminhou uma notícia-crime para investigação, apontando, em tese, possíveis crimes relacionados à divulgação de pesquisa fraudulenta, falsidade ideológica eleitoral e dificuldade à fiscalização da Justiça Eleitoral.

O MPE também sugeriu que a apuração alcance outra pesquisa, realizada pelo instituto Ipsensus, que igualmente colocou Álvaro Dias na liderança.

Nesse levantamento, foram identificadas concentrações consideradas atípicas na atuação de entrevistadores e possíveis conexões entre profissionais e empresas envolvidas nas duas pesquisas.

Investigações ainda não significam condenação

Apesar da gravidade dos indícios apontados, as suspeitas ainda precisam ser investigadas e comprovadas. O parecer do Ministério Público não representa uma condenação dos institutos, das empresas ou dos candidatos citados.

As empresas envolvidas contestaram as acusações e defenderam a regularidade dos levantamentos. Também questionaram aspectos do processo e da metodologia utilizada para analisar os dados.

O caso ainda será analisado pela Justiça Eleitoral, que poderá determinar novas diligências e avaliar a existência ou não de irregularidades e eventuais responsabilidades.

A investigação ganha peso no cenário eleitoral potiguar porque as pesquisas questionadas apresentaram resultados diferentes da tendência observada na maioria dos levantamentos divulgados no estado.

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