Foto: José Aldenir

O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Cadu Xavier (PT) volta a apresentar propostas para ampliar investimentos em áreas como educação e saúde, incluindo o uso da telemedicina para melhorar o atendimento à população. O problema é que as promessas de campanha precisam ser confrontadas com a realidade das contas públicas e dos serviços estaduais após quase oito anos de gestão do grupo político que Cadu agora representa.

Cadu não chega à disputa como um candidato sem experiência dentro do governo. Ele ocupou a Secretaria de Estado da Fazenda durante a administração de Fátima Bezerra e deixou o cargo em março de 2026 para disputar a eleição.

É justamente por isso que suas propostas levantam uma questão inevitável: se há necessidade de ampliar investimentos em educação e saúde, por que isso não foi feito de forma suficiente durante o período em que Cadu participou diretamente da administração estadual?

Mais investimentos, mas com qual dinheiro?

A promessa de ampliar investimentos é politicamente fácil de apresentar. O desafio é explicar de onde sairão os recursos.

O Rio Grande do Norte enfrenta problemas fiscais, déficit previdenciário e baixa capacidade de investimento. Dados já divulgados sobre as contas estaduais mostram uma forte pressão das despesas obrigatórias sobre o orçamento, enquanto o Estado precisa encontrar espaço para obras, infraestrutura e melhoria dos serviços públicos.

Nesse cenário, Cadu precisa apresentar mais do que uma intenção. É necessário explicar quanto custarão as propostas, quais despesas serão reduzidas, quais receitas serão ampliadas e de que forma o Estado terá condições de financiar os novos investimentos.

A questão ganha ainda mais peso porque o candidato foi responsável justamente pela área financeira do governo Fátima. Não se trata, portanto, de cobrar de Cadu uma explicação sobre um governo do qual ele não fez parte. Ele fez.

Telemedicina resolve uma saúde que ainda enfrenta problemas básicos?

Na saúde, Cadu defende ampliar o uso da telemedicina como ferramenta para melhorar o acesso da população aos serviços.

A tecnologia pode, de fato, ampliar o atendimento e reduzir deslocamentos, especialmente em regiões mais distantes. Mas ela não substitui estrutura física, equipamentos, médicos, medicamentos, exames e profissionais disponíveis para atender presencialmente os pacientes.

E é aí que a proposta precisa ser colocada diante da realidade do Estado.

O governo Fátima enfrenta uma série de problemas na rede pública de saúde, incluindo dificuldades relacionadas a equipamentos, atendimento hospitalar e funcionamento de unidades regionais. O próprio debate eleitoral recente trouxe à tona situações como atrasos no pagamento de profissionais de UTIs e problemas recorrentes no Hospital Walfredo Gurgel.

A telemedicina pode ser parte da solução. Mas não pode ser apresentada como resposta para problemas que exigem investimento físico e gestão eficiente da rede.

Educação também exige mais do que promessa

Na educação, Cadu defende ampliação dos investimentos. Novamente, a proposta esbarra na necessidade de explicar como será financiada.

O candidato tenta se apresentar como alguém capaz de ampliar a atuação do Estado, mas sua candidatura também representa a continuidade do grupo político que administra o RN desde 2019.

A eleição, portanto, coloca uma questão objetiva para o eleitor: Cadu pretende corrigir os problemas da atual gestão ou apenas ampliar um modelo administrativo que já está em funcionamento?

Se a resposta for que é preciso fazer diferente, o candidato precisa explicar quais decisões da administração Fátima considera equivocadas. Se, por outro lado, defende a continuidade, também precisa assumir os resultados positivos e negativos acumulados pelo governo do qual fez parte.

A promessa de continuidade chega acompanhada de uma cobrança

Cadu tenta transformar sua experiência como secretário em credencial para governar. É uma estratégia legítima de campanha. Mas a mesma experiência que pode ser apresentada como conhecimento da máquina pública também cria uma responsabilidade maior diante do eleitor. Quem ocupou a Secretaria da Fazenda conhece as limitações financeiras do Estado, as dificuldades orçamentárias e os desafios para ampliar investimentos.

Por isso, quando Cadu fala em investir mais em educação e saúde, a pergunta que fica é simples: o que mudou na realidade financeira do RN para que aquilo que não foi suficiente durante a gestão da qual ele participou agora possa ser feito em um eventual governo seu?

A resposta será importante para definir se a candidatura representa, de fato, uma nova etapa para o Estado ou apenas a continuidade política do governo Fátima Bezerra com um novo nome na disputa.

Compartilhe esse conteúdo: