Senador troca o discurso da renovação pela cartilha da política tradicional.
A política costuma ser implacável com quem vende uma imagem e entrega outra. E talvez nenhum exemplo recente no Rio Grande do Norte simbolize melhor essa contradição do que o senador Styvenson Valentim.
Ele chegou ao Senado embalado pelo discurso da renovação, combatendo o nepotismo, criticando as oligarquias e prometendo romper com os vícios da velha política. Fez desse discurso sua principal credencial diante de um eleitorado cansado dos sobrenomes de sempre e das alianças familiares que dominam o Estado há décadas.
Agora, o roteiro mudou.
Ao anunciar a própria irmã como primeira suplente e, segundo informações divulgadas publicamente, a vice-prefeita de Currais Novos, Milena Galvão — irmã do presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira — como segunda suplente, Styvenson entrega exatamente aquilo que dizia combater: uma chapa construída sob o peso dos laços familiares e das alianças com grupos tradicionais da política potiguar.
É verdade que a lei não proíbe nenhuma dessas escolhas. Mas o debate nunca foi sobre legalidade. Foi sobre coerência.
Quem fez carreira acusando os outros de praticarem a velha política não pode esperar aplausos quando passa a utilizar métodos semelhantes. O problema não está apenas nas indicações. Está na distância entre o discurso que elegeu o senador e a prática que hoje apresenta ao eleitor.
Na política, mudar de estratégia faz parte do jogo. Mudar de princípios tem um custo muito maior.
A grande pergunta agora não é se Styvenson conseguiu montar uma chapa competitiva. A questão é outra: o eleitor que acreditou estar elegendo um símbolo da renovação aceitará votar novamente em alguém que, aos olhos de muitos, passou a reproduzir exatamente o modelo que prometia derrotar?
No fim das contas, a eleição de 2026 pode deixar de ser um julgamento sobre o mandato do senador para se transformar em um teste de memória do eleitor. Porque promessas envelhecem. Mas incoerências costumam envelhecer muito mais rápido.