Enquanto milhares de natalenses convivem diariamente com ruas alagadas, dificuldades para conseguir atendimento na rede pública de saúde e uma série de problemas que afetam diretamente a qualidade de vida da população, a gestão do prefeito Paulinho Freire sinaliza a possibilidade de gastar até R$ 3,9 milhões com a emissão de passagens aéreas nacionais e internacionais para atender secretarias e órgãos da Prefeitura de Natal.
É verdade que a administração pública precisa garantir deslocamentos de servidores e gestores quando eles são necessários ao interesse público. Viagens institucionais fazem parte da rotina de qualquer governo. O problema não está, necessariamente, na existência da despesa, mas na mensagem política transmitida quando um valor dessa magnitude é reservado em um cenário de tantas demandas urgentes.
O processo de credenciamento aberto pela Prefeitura prevê a contratação de serviços de agenciamento para reservas, emissões e remarcações de passagens, permanecendo aberto até fevereiro de 2027. Segundo o Termo de Referência elaborado pela Secretaria Municipal de Administração (Semad), a estimativa contempla a emissão de 2.541 passagens nacionais e 189 internacionais, totalizando um gasto projetado de R$ 3.925.318,52 ao longo de 12 meses.
Do ponto de vista legal e administrativo, trata-se de um planejamento de despesas, e não necessariamente da execução integral desse valor. Ainda assim, a cifra desperta um debate inevitável: quais são, de fato, as prioridades da atual gestão?
A resposta para essa pergunta não está apenas nos números do orçamento, mas na percepção da população. Para quem enfrenta alagamentos sempre que chove, espera meses por uma consulta especializada ou convive com problemas estruturais em seu bairro, a previsão de quase R$ 4 milhões destinados a viagens oficiais pode soar desconectada das necessidades mais urgentes da cidade.
Governar também significa estabelecer prioridades e compreender o simbolismo de cada decisão administrativa. Em momentos de restrição orçamentária e cobrança popular por melhorias nos serviços públicos, gastos dessa natureza tendem a ser analisados não apenas sob a ótica da legalidade, mas principalmente sob a lente da oportunidade política.
Mais do que explicar a necessidade das viagens, cabe à Prefeitura demonstrar de forma transparente quais resultados concretos elas produzirão para Natal. Afinal, cada recurso público investido deve gerar benefícios mensuráveis para a população.
A discussão, portanto, vai além do valor reservado para passagens aéreas. Ela diz respeito ao modelo de gestão que a administração deseja apresentar aos natalenses. Em uma cidade marcada por desafios históricos na infraestrutura e na saúde pública, toda decisão orçamentária comunica uma escolha. E, na política, poucas coisas são mais importantes do que a ordem das prioridades.
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