Atrasar salários de aposentados e pensionistas não é apenas um problema administrativo. É uma escolha política que cobra seu preço dos mais vulneráveis.

Há uma máxima na administração pública que deveria ser inegociável: quem trabalhou a vida inteira para servir ao Estado merece, no mínimo, respeito. E respeito começa pelo pagamento em dia dos salários e benefícios de quem depende deles para sobreviver.

As denúncias feitas pelo Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público da Administração Direta do Estado (Sinsp/RN), apontando novos atrasos no pagamento de aposentados e pensionistas do Rio Grande do Norte pelo segundo mês consecutivo, revelam um problema que vai além da burocracia. Revelam uma gestão que, ao menos sob a ótica dos servidores atingidos, parece estabelecer prioridades que deixam justamente os inativos para depois.

O aspecto mais preocupante não é apenas o atraso em si, mas a aparente seletividade. Enquanto servidores da ativa receberam normalmente, parte dos aposentados e pensionistas permaneceu sem seus vencimentos. Dentro do próprio grupo de aposentados, segundo o sindicato, houve diferenças entre categorias. Quando o Estado cria situações em que alguns recebem e outros aguardam indefinidamente, instala-se uma sensação de desigualdade difícil de justificar.

Também chama atenção o silêncio. Até o momento citado na reportagem, não havia manifestação oficial explicando as razões do atraso nem apresentando um cronograma transparente para regularização dos pagamentos. Em qualquer governo, problemas podem acontecer. O que diferencia uma gestão responsável é a forma como ela presta contas à população. O silêncio, nesse contexto, alimenta insegurança, desconfiança e desgaste político.

A situação torna-se ainda mais grave porque não se trata de um episódio isolado. Segundo o sindicato, é o segundo mês consecutivo em que aposentados e pensionistas enfrentam esse cenário. Quando uma exceção passa a se repetir, deixa de ser um acidente e passa a indicar uma falha estrutural — ou uma prioridade administrativa questionável.

É preciso lembrar que aposentados e pensionistas não são servidores de segunda categoria. Eles construíram carreiras, contribuíram para o funcionamento do Estado e continuam dependendo desses recursos para custear alimentação, medicamentos, moradia e despesas básicas. Para muitos, alguns dias de atraso representam muito mais do que uma inconveniência: significam contas vencidas, juros e insegurança financeira.

Governar exige escolhas. Mas nenhuma escolha deveria transmitir a mensagem de que quem já dedicou décadas ao serviço público pode esperar enquanto outros recebem. A folha de pagamento só pode ser considerada verdadeiramente quitada quando todos os servidores — ativos, aposentados e pensionistas — tiverem seus direitos assegurados.

Mais do que resolver o atraso atual, o Governo precisa restabelecer a confiança. Isso passa por transparência, planejamento e compromisso com um calendário que trate todos os servidores com igualdade. Afinal, o respeito àqueles que ajudaram a construir o Estado não pode depender da conveniência do caixa nem da ordem da fila.

Confira a análise do colunista Clauber Beserra:

 

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