As convenções partidárias deste fim de semana transformaram Natal na vitrine da política potiguar. PT, União Brasil, PL e seus aliados disputaram não apenas candidaturas, mas também quem produzia a imagem mais impactante de força popular. Ginásios cheios, bandeiras, músicas, discursos inflamados e um espetáculo cuidadosamente montado para convencer o eleitor de que determinada candidatura já nasceu vencedora.
Mas existe uma pergunta que as imagens não respondem.
Quem realmente estava ali porque acredita no projeto político apresentado?
Nas eleições brasileiras, especialmente em estados onde a máquina pública exerce enorme influência sobre a vida econômica, convenções lotadas quase nunca significam, necessariamente, apoio espontâneo. Muitas vezes representam a capacidade de mobilização das estruturas de poder.
No Rio Grande do Norte, essa discussão ressurge a cada eleição. É impossível ignorar os relatos recorrentes de servidores comissionados, terceirizados, prestadores de serviço e ocupantes de funções de confiança que comparecem a eventos políticos para demonstrar fidelidade aos grupos que controlam prefeituras e o Governo do Estado. Ainda que gestores sustentem que a participação seja voluntária, o ambiente de dependência política alimenta uma dúvida inevitável: até onde existe liberdade quando o emprego depende da boa vontade de quem ocupa o poder?
Não se trata apenas de encher um ginásio. Trata-se de construir uma narrativa de força capaz de influenciar a opinião pública, intimidar adversários e produzir o chamado “efeito manada”, levando parte do eleitor a acreditar que determinado candidato já possui apoio majoritário.
A velha política conhece esse roteiro de cor.
Ônibus chegam de todas as regiões, caravanas são organizadas, estruturas são montadas com precisão quase militar e, ao final, as redes sociais exibem imagens cuidadosamente enquadradas para vender uma sensação de unanimidade. O problema é que fotografia não é voto, vídeo não é urna e aplauso coletivo nem sempre traduz apoio verdadeiro.
O mais preocupante é quando a fronteira entre partido e administração pública se torna cada vez mais difícil de enxergar. A democracia perde qualidade quando a força eleitoral passa a ser medida pela capacidade de mobilizar estruturas governamentais, e não pela capacidade de convencer cidadãos livres.
Esse não é um debate exclusivo do atual processo eleitoral nem pertence a um único partido. Trata-se de uma prática historicamente denunciada na política brasileira, independentemente de ideologia. Quem ocupa o poder sempre dispõe de instrumentos de mobilização muito superiores aos de quem está na oposição. A diferença está em saber até onde essa mobilização respeita os limites éticos e legais.
Enquanto isso, o eleitor observa.
A mesma multidão que hoje canta palavras de ordem pode desaparecer no dia seguinte. A história política do Rio Grande do Norte está repleta de convenções grandiosas que antecederam derrotas igualmente memoráveis. Porque o voto continua sendo secreto, silencioso e impossível de ser fotografado.
As convenções cumpriram seu papel de inaugurar oficialmente a disputa pelo Governo do Estado. Cadu Xavier, Allyson Bezerra e Álvaro Dias exibiram suas bases políticas e apresentaram suas alianças. Agora termina o espetáculo das arquibancadas e começa o verdadeiro teste: convencer uma população que parece cada vez menos impressionada com ginásios lotados e cada vez mais interessada em resultados concretos.
No fim das contas, o que decide uma eleição não é quem consegue reunir mais gente para a foto, mas quem conquista a confiança do eleitor quando a cabine de votação fecha e ninguém está olhando.
Confira, na íntegra, a análise do colunista Clauber Beserra:
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