A possível indicação da irmã para a suplência — ou até mesmo de um empresário de outro estado — coloca em xeque a promessa de renovação que levou o senador ao Congresso.

Na política, mudar de opinião não é, necessariamente, um defeito. Afinal, a experiência pode levar qualquer agente público a rever conceitos e posições. O problema surge quando essa mudança atinge justamente os princípios que sustentaram uma campanha vitoriosa e conquistaram a confiança do eleitor.

Foi com esse discurso que Styvenson Valentim chegou ao Senado em 2018. Apresentou-se como um político diferente, distante das velhas oligarquias, crítico do nepotismo e das práticas tradicionais que, durante décadas, marcaram a política potiguar. Essa narrativa mobilizou milhares de eleitores que buscavam uma verdadeira renovação.

Oito anos depois, esse mesmo eleitor tem motivos para se perguntar se aquele compromisso continua de pé.

Durante entrevista à Rádio 96 FM Natal, Styvenson admitiu que estuda indicar a própria irmã, Anne Kelly Valentim, como suplente em sua chapa para a reeleição ao Senado em 2026. Mais do que isso, reconheceu que sua posição sobre nepotismo mudou desde que entrou para a política.

“Foi, no passado. Hoje já não é mais”, respondeu ao ser questionado sobre a contradição entre o discurso que adotava em 2018 e a possibilidade de colocar um familiar na linha sucessória de seu mandato.

A justificativa apresentada é a confiança. Segundo o senador, caso dispute o Governo do Rio Grande do Norte em 2030, deseja deixar a cadeira no Senado nas mãos de alguém de sua absoluta confiança. É um argumento compreensível sob a ótica pessoal. Sob a ótica política, porém, desperta um questionamento inevitável: por que esse mesmo raciocínio não era aceitável quando ele criticava outros políticos por adotarem prática semelhante?

Mas talvez a revelação mais preocupante tenha passado quase despercebida.

Styvenson afirmou que avalia três nomes para a suplência. Além da irmã, existem dois empresários interessados na vaga. Um deles, segundo o próprio senador, é um grande empresário do Espírito Santo. Ou seja, uma das possibilidades consideradas para substituir um senador eleito pelo Rio Grande do Norte seria alguém sem trajetória política conhecida no estado e oriundo de outra unidade da federação.

A hipótese levanta uma discussão ainda mais ampla. Afinal, a suplência no Senado não é um cargo simbólico. Caso o titular deixe o mandato para disputar outro cargo, como o próprio Styvenson admite poder fazer em 2030, o suplente assume integralmente a representação do estado no Congresso Nacional. Trata-se de um parlamentar com direito a voto em matérias constitucionais, indicação de autoridades, distribuição de recursos e defesa dos interesses do Rio Grande do Norte.

É legítimo perguntar se essa representação deve ficar nas mãos de alguém cujo principal vínculo seja uma relação de confiança pessoal com o titular ou a capacidade de financiar uma campanha eleitoral.

Confira a análise do Colunista Clauber Beserra:

 

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O próprio senador reconheceu que empresários ofereceram apoio financeiro em troca da suplência e afirmou que esse tipo de negociação é comum nas campanhas ao Senado. Também declarou que, na prática, muitos suplentes são escolhidos justamente por contribuírem financeiramente ou agregarem votos.

Se a alternativa ao parentesco é entregar a vaga a empresários interessados no espaço político — inclusive um de fora do estado —, o debate deixa de ser apenas sobre nepotismo. Passa a ser sobre o modelo de representação política que se pretende defender.