São João de Natal 2026 na Arena das Dunas/ O Hospital Municipal de Natal, inaugurado em dezembro de 2024, nunca atendeu pacientes (Foto: Reprodução)

Entre o brilho dos palcos e a realidade das cidades, a pergunta permanece: quais são as verdadeiras prioridades da gestão pública?

 

O Dia de São João é uma das datas mais simbólicas para nós, nordestinos. É a celebração das nossas raízes, da cultura popular, das tradições que atravessam gerações e ajudam a construir nossa identidade. Em junho, o Nordeste se veste de festa, e isso merece ser valorizado.

Mas, em meio ao colorido das bandeirolas, ao som do forró e à alegria dos festejos, outro ingrediente costuma potencializar a euforia coletiva: o futebol. Em anos de Copa do Mundo, a combinação entre festa e paixão esportiva cria um ambiente de entusiasmo quase permanente. O problema surge quando essa atmosfera serve para desviar o foco de problemas que continuam sem solução.

Nos últimos anos, muitas prefeituras passaram a disputar quem realiza o maior São João, investindo cifras cada vez mais elevadas na contratação de atrações nacionais. Em diversos casos, artistas sem qualquer ligação com a tradição junina recebem cachês que chegam a R$ 700 mil, R$ 800 mil ou até R$ 950 mil por apresentação.

Natal é um exemplo que desperta debate. A gestão do prefeito Paulinho Freire destinou 12 milhões de reais para a programação dos festejos juninos, com uma lista de atrações de grande apelo popular. Enquanto isso, parte da população continua aguardando respostas para demandas históricas da cidade.

O Hospital Municipal de Natal, por exemplo, segue sendo uma expectativa para milhares de natalenses. Há também cobranças relacionadas à pavimentação de ruas, iluminação pública, manutenção de praças e outros serviços essenciais que impactam diretamente a qualidade de vida da população.

A questão não é ser contra a cultura, nem defender o fim das festas populares. Pelo contrário. O São João é patrimônio cultural e deve ser incentivado. O debate está na proporção dos gastos e na definição de prioridades.

Quando milhões de reais são investidos em poucos dias de festa enquanto obras importantes permanecem inacabadas ou serviços básicos enfrentam dificuldades, é natural que a sociedade faça perguntas. Qual é a real prioridade da administração pública? O equilíbrio entre entretenimento e investimentos estruturantes está sendo respeitado?

Historicamente, períodos festivos sempre tiveram forte impacto político. Em anos eleitorais, esse fenômeno costuma ganhar ainda mais intensidade. Gestores buscam visibilidade, aprovação popular e associação de suas imagens a grandes eventos. O risco é que a celebração momentânea acabe escondendo problemas que continuarão presentes quando os palcos forem desmontados.

Depois que as luzes se apagam, os shows terminam e os turistas vão embora, a população volta à rotina. É nesse momento que reaparecem os desafios diários: a espera por atendimento de saúde, os buracos nas ruas, a falta de infraestrutura e os serviços públicos que não funcionam como deveriam.

A festa passa. A Copa termina. Mas os problemas do cotidiano permanecem. E talvez seja justamente nesse contraste que esteja a principal reflexão que os cidadãos precisam fazer: qual legado fica depois da euforia?

 

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