O litro do leite longa vida ficou 3,66% mais caro na cesta básica de Natal em abril, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O preço médio do produto passou de R$ 6,28, em março, para R$ 6,51, em abril, aumentando a pressão sobre o orçamento das famílias. A alta do item também foi apontada entre os produtos que contribuíram para o avanço da cesta básica na capital potiguar no período.
Apesar do aumento mensal, o economista Ediran Teixeira, técnico do Dieese no Rio Grande do Norte, pondera que a variação acumulada do leite em Natal ainda não acompanha o ritmo mais amplo da inflação. Segundo ele, o produto registrou alta de 1,40% em 12 meses, 3,66% em abril e 6,03% no quadrimestre.
“Em relação ao ano anterior, os preços do leite ainda estão abaixo do ritmo da inflação. É preciso esperar o mês de maio correr para avaliar melhor essa variação. Todos os outros produtos de alimentação estão sendo afetados, a partir de abril, pela mudança de preços dos combustíveis”, afirmou Teixeira.
O avanço do leite ocorre em um contexto de aumento generalizado dos alimentos essenciais. Dados do Dieese apontaram alta no custo da cesta básica em todas as 27 capitais pesquisadas pelo segundo mês consecutivo, em março e abril de 2026.
Custos no campo pressionam o preço
Entre os fatores que ajudam a explicar o movimento, Ediran Teixeira cita a redução da produção de leite provocada pelo abate de matrizes em 2025. Segundo ele, produtores de carne bovina no Brasil abateram vacas reprodutoras em meio à pressão internacional por mais carne no mercado, o que diminuiu a produção leiteira. O economista também lembra que o setor atravessa o período de entressafra.
O economista Ricardo Valério, superintendente do Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Norte (Corecon/RN), também relaciona o aumento aos custos de produção. Para ele, a alta dos combustíveis e dos fertilizantes impacta diretamente a cadeia produtiva, especialmente em um cenário de instabilidade internacional.
A situação, segundo Valério, é “agravada ainda pela dependência do Brasil do fornecimento de 85% dos fertilizantes da região do conflito, o que está encarecendo os produtos industriais e, notadamente, os primários, como o leite longa vida”.
Com o abate de matrizes, a recomposição do rebanho tende a ser lenta, avalia o economista. “Os preços devem continuar em alta, e a situação pode ser agravada diante dos prenúncios e dos efeitos do El Niño, que pode provocar estiagem em algumas regiões”, afirmou.
Consumidores sentem alta nas compras
Nas prateleiras, o reajuste já é percebido pelos consumidores. A aposentada Vilma Alves e a artesã Eliane Tomaz, que faziam compras em Natal nesta terça-feira (19), afirmaram que o preço do leite está “um absurdo”. Elas também relataram aumento em derivados, como manteiga e queijo.
“Todo dia tem que ter leite [na nossa casa]. Mas o leite, infelizmente, está muito caro”, disse Eliane, que consome o produto e seus derivados com frequência por gosto e por questões de saúde.
Vilma afirmou que ainda encontra promoções pontuais, mas que o preço permanece elevado na maior parte dos estabelecimentos. “Em alguns supermercados tem uma promoçãozinha, mas na maioria está muito caro”, completou.
Produtores dizem que alta não chega ao campo
Enquanto o consumidor paga mais caro, representantes do setor rural afirmam que o aumento não tem sido sentido da mesma forma por quem produz. O presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do RN (Fetarn), Erivam do Carmo, disse que “o produtor, principalmente o agricultor familiar, não tem sentido essa alta de preço quando se trata da comercialização do leite para queijeiras e lacticínios”.
Segundo ele, o que tem pesado para o produtor é o aumento dos insumos, como ração concentrada, torta de algodão, farelo de milho e soja. A mão de obra também aparece como fator de pressão, já que em algumas cidades potiguares há escassez de trabalhadores para a rotina intensa no campo.
A Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern) avalia que a alta resulta de fatores conjunturais e estruturais, incluindo a recomposição de preços ao produtor e os custos elevados no meio rural.
“No meio rural, os custos seguem elevados, sobretudo com alimentação animal, energia elétrica, combustíveis e logística. Na atividade leiteira, a energia tem peso importante, enquanto os combustíveis impactam tanto o transporte da produção quanto os insumos utilizados nas propriedades”, informou a entidade.
Com custos maiores no campo, pressão no transporte e reajuste nas prateleiras, o leite longa vida se tornou um dos itens que mais chamam atenção na cesta básica de Natal. O impacto é sentido de ponta a ponta: pelo consumidor, que paga mais; e pelo produtor, que diz enfrentar despesas mais altas sem a mesma recomposição na venda para queijeiras e laticínios.



