O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Cadu Xavier (PT) chega à reta decisiva da disputa eleitoral diante de uma cobrança central: como pretende reorganizar as contas públicas de um estado cuja situação fiscal se agravou durante o governo do qual fez parte?

Ex-secretário estadual da Fazenda, Cadu deixou o cargo em março de 2026 para disputar as eleições, após comandar a pasta desde 2023. Agora, tenta transformar a experiência administrativa em credencial para governar o RN. O problema é que os indicadores fiscais registrados durante a gestão da governadora Fátima Bezerra (PT) colocam em discussão os resultados alcançados pela equipe econômica e a capacidade do candidato de promover o ajuste que o estado necessita.

Segundo dados fiscais divulgados em 2026, o Rio Grande do Norte registrou insuficiência de caixa de R$ 3,65 bilhões em 2025, conforme avaliação preliminar do Tesouro Nacional. O indicador representa uma diferença negativa entre disponibilidades financeiras e obrigações consideradas no cálculo, e não deve ser confundido com o estoque total da dívida pública estadual.

O resultado reforça uma questão política relevante: se Cadu participou diretamente da condução das finanças estaduais durante anos, quais medidas pretende adotar agora para corrigir problemas que não foram solucionados enquanto esteve no governo?

Estado descumpriu metas fiscais e enfrenta restrições

A situação financeira do RN não se resume ao saldo negativo de caixa. Uma análise preliminar do Tesouro Nacional apontou que o estado não cumpriu as três metas fiscais previstas no Programa de Equilíbrio Fiscal para 2025 e manteve classificação C na avaliação da capacidade de pagamento.

Entre os indicadores apresentados estão uma poupança corrente de 96,77%, acima do limite de 95% previsto no programa, e um resultado negativo de R$ 3,65 bilhões na disponibilidade de caixa líquida. A despesa com pessoal também apareceu como um dos principais pontos de pressão sobre as finanças estaduais.

Esses resultados podem dificultar o acesso a determinadas operações de crédito com garantia da União e aumentar a pressão por medidas de ajuste. Na prática, quanto maior o comprometimento do orçamento com despesas obrigatórias, menor tende a ser o espaço disponível para investimentos em infraestrutura, equipamentos públicos e ampliação de serviços.

A situação exige decisões que vão além de medidas pontuais de arrecadação. O governo precisa equilibrar receitas e despesas, administrar obrigações financeiras e recuperar a capacidade de investimento sem comprometer o funcionamento da máquina pública.

Cadu comandou a Fazenda e precisa explicar os resultados

A responsabilidade política de Cadu está ligada ao período em que ocupou a Secretaria da Fazenda, pasta estratégica para a arrecadação, o controle financeiro e a execução da política fiscal do estado.

Durante sua passagem pelo governo, o RN continuou enfrentando dificuldades para equilibrar as contas. Em março de 2026, quando foi chamado a prestar esclarecimentos à Comissão de Finanças e Fiscalização da Assembleia Legislativa, Cadu reconheceu atrasos nos repasses de empréstimos consignados a instituições financeiras. Na ocasião, o governo informou um passivo de R$ 363,3 milhões, acumulado entre maio de 2023 e março de 2026.

O secretário atribuiu parte do problema à frustração de receitas, que teria alcançado R$ 474,5 milhões em 2025. A explicação é relevante para entender as dificuldades enfrentadas pela administração, mas também evidencia a necessidade de discutir como o governo se preparou para lidar com oscilações na arrecadação e manter os compromissos financeiros em dia.

Agora candidato ao Executivo estadual, Cadu precisa esclarecer quais decisões considera insuficientes durante sua gestão e o que faria de maneira diferente em um eventual mandato. A experiência na Fazenda pode ser apresentada como conhecimento da máquina pública, mas também torna legítima a cobrança por resultados concretos.

Promessa de ajuste precisa vir acompanhada de um plano

O desafio fiscal do RN exige medidas capazes de produzir efeitos mensuráveis. Não basta afirmar que o estado precisa gastar melhor ou ampliar a arrecadação. É necessário apresentar metas, prazos e instrumentos para alcançá-las.

Cadu precisa explicar como pretende reduzir o desequilíbrio entre receitas e despesas, recuperar a disponibilidade de caixa e controlar o crescimento dos gastos obrigatórios. Também precisa esclarecer quais áreas poderiam sofrer mudanças, quais despesas seriam revistas e como pretende preservar investimentos e serviços essenciais durante o processo de ajuste.

Outro ponto importante é a capacidade de pagamento do estado. Uma recuperação fiscal sustentável depende de resultados consistentes ao longo do tempo, e não apenas de medidas emergenciais destinadas a cobrir obrigações imediatas.

A cobrança ganha peso porque o candidato não está distante da administração cujos resultados agora precisam ser avaliados. Ele integrou o governo Fátima e ocupou uma das funções centrais da área econômica. Por isso, o eleitor pode exigir explicações sobre as decisões tomadas durante esse período e sobre as lições que o candidato afirma ter extraído da experiência.

Continuidade política aumenta a pressão por respostas

A candidatura de Cadu representa a continuidade do grupo político liderado por Fátima Bezerra, no comando do estado desde 2019. Nesse contexto, o debate sobre as contas públicas também envolve a avaliação das escolhas feitas pela atual administração.

Se o candidato considera necessário promover mudanças na política fiscal, precisa explicar por que essas medidas não produziram resultados suficientes durante o período em que participou do governo. Se defende a manutenção do modelo adotado, deve apresentar como pretende superar os obstáculos financeiros que continuam pressionando o orçamento estadual.

Os indicadores disponíveis não permitem atribuir exclusivamente a Cadu a origem de todas as obrigações ou dificuldades fiscais do RN. As contas públicas também são influenciadas por compromissos herdados, despesas obrigatórias, variações na arrecadação e decisões de diferentes áreas do Executivo. Ainda assim, o período em que comandou a Fazenda faz de sua atuação parte relevante da avaliação política da gestão.

A questão central para o eleitor é saber se Cadu tem um plano fiscal consistente para enfrentar os problemas do RN e quais evidências sustentam sua capacidade de executá-lo. O candidato conhece a estrutura financeira do estado por dentro. Agora, precisa demonstrar como pretende corrigir os desequilíbrios que permaneceram durante sua passagem pelo governo.

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