Reprodução Inter Tv

O debate entre os candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte promovido pela Inter TV Cabugi foi marcado por ataques entre Cadu de Lula (PT) e Álvaro Dias (PL), especialmente quando o assunto foi a saúde pública. Os dois candidatos tentaram explorar as fragilidades das administrações adversárias, mas a discussão também colocou em evidência problemas enfrentados pelas gestões das quais ambos fizeram parte.

Álvaro Dias questionou Cadu sobre sua participação no governo Fátima Bezerra. Cadu, que foi secretário da Fazenda da administração estadual, defendeu os resultados da gestão petista e citou investimentos e avanços na estrutura de saúde. Em debates anteriores, o candidato também afirmou que o governo Fátima ampliou o número de leitos de UTI e realizou mais cirurgias que a gestão anterior.

O discurso, porém, contrasta com problemas registrados ao longo dos últimos anos no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, principal unidade de urgência e emergência do Estado. Em outubro de 2024, por exemplo, o hospital chegou a registrar cerca de 50 pacientes nos corredores, além de problemas com equipamentos e salas de cirurgia utilizadas para acomodar pacientes. Na mesma ocasião, os dois tomógrafos chegaram a ficar sem funcionar.

O problema dos equipamentos voltou a ocorrer em setembro de 2025, quando os dois tomógrafos do Walfredo quebraram simultaneamente. Pacientes que precisavam dos exames foram transferidos para o Hospital Deoclécio Marques, em Parnamirim. A própria Secretaria Estadual de Saúde confirmou a interrupção e informou que havia acionado a empresa responsável pela manutenção.

Também houve registros de atrasos nos pagamentos de profissionais. Em março de 2026, médicos que atuavam no Walfredo Gurgel relataram ao Sindicato dos Médicos do RN que estavam com salários atrasados e ameaçaram suspender atividades não urgentes caso os pagamentos não fossem regularizados. Segundo o sindicato, o último mês recebido por aqueles profissionais era setembro de 2025.

É nesse cenário que Cadu apresenta propostas para ampliar e descentralizar o atendimento. Entre elas está a defesa da conclusão do Hospital Metropolitano, em Parnamirim. O candidato afirmou que pretende cobrar do governo federal a conclusão da obra e mencionou uma estrutura com 350 leitos.

Mas há uma diferença importante entre discurso eleitoral e estágio da obra. O Hospital Metropolitano não é apenas uma promessa sem projeto: documentos oficiais do governo estadual registram contrato para sua construção, com execução iniciada em 2026 e vigência de 780 dias. O empreendimento, portanto, está em construção e ainda não representa uma solução disponível para a população neste momento.

Álvaro Dias, por sua vez, também utilizou a situação da saúde estadual para atacar Cadu e o governo Fátima, mas sua própria passagem pela Prefeitura de Natal oferece um episódio que fragiliza o discurso de cobrança sobre obras e funcionamento de unidades de saúde.

O Hospital Municipal de Natal foi inaugurado em dezembro de 2024, nos últimos dias da administração de Álvaro, mas só começou a receber pacientes em setembro de 2026, quase dois anos depois da solenidade de inauguração. A abertura ocorreu de forma gradual.

Na campanha, Álvaro argumentou que a estrutura física entregue no fim de sua gestão estava concluída e atribuiu parte da demora posterior à ampliação do projeto pelo prefeito Paulinho Freire, que incluiu centros cirúrgicos e leitos de UTI.

O episódio, contudo, deixa uma questão inevitável para o debate eleitoral: de que adianta anunciar ou inaugurar um hospital se a população ainda precisa esperar para ter acesso ao atendimento?

No confronto da Inter TV, Cadu e Álvaro passaram boa parte do tempo tentando associar o adversário aos problemas da saúde pública. O que ficou menos evidente, entretanto, foi uma discussão aprofundada sobre as responsabilidades administrativas de cada um e sobre como evitar que obras sejam anunciadas antes de estarem efetivamente disponíveis ou que hospitais continuem enfrentando problemas de estrutura, equipamentos e pessoal.

A disputa entre os dois candidatos acabou, assim, expondo uma contradição: enquanto Cadu busca defender o legado do governo Fátima e apresentar novas obras como solução para a saúde, Álvaro tenta responsabilizar a administração estadual pelos problemas que persistem. Ao mesmo tempo, ambos precisam lidar, em seus próprios campos políticos, com episódios concretos que alimentam os questionamentos sobre a capacidade do poder público de transformar anúncios, obras e investimentos em atendimento efetivo à população.

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