O ex-assessor parlamentar Laércio Cardoso de Lima acusa o gabinete da vereadora de Natal e candidata a deputada federal Thabatta Pimenta (PV) de ter exigido a devolução de parte de sua remuneração durante o período em que integrou a equipe da parlamentar.
Em entrevista para a advogada Brenda Martins, Laércio afirmou que foi contratado pela Câmara Municipal de Natal, mas teria sido direcionado a desempenhar atividades particulares na residência de Thabatta, incluindo tarefas domésticas e cuidados com o irmão da vereadora, Ryan.
Segundo o ex-assessor, a mudança para a casa da parlamentar teria sido acompanhada de uma alteração salarial. Ele afirma que passou a receber R$ 3,8 mil, contra os R$ 2,4 mil anteriores, mas teria de entregar R$ 800 em espécie à pessoa que identifica como chefe de gabinete. Ainda conforme o relato, a orientação seria evitar que os repasses deixassem registros.
A acusação caracteriza, em tese, uma possível prática conhecida como rachadinha, na qual parte da remuneração de um servidor é devolvida a um superior ou integrante do grupo político. No entanto, os documentos consultados confirmam apenas a nomeação de Laércio para o gabinete. Até o momento, não foram apresentados comprovantes dos supostos repasses, mensagens que demonstrem cobranças ou testemunhas independentes que confirmem essa parte do relato.
Nomeação e passagem pelo gabinete
A presença de Laércio na equipe de Thabatta está registrada oficialmente. A Portaria nº 007/2025-MD, publicada em 3 de janeiro de 2025, formalizou sua nomeação para o cargo de Assessor Parlamentar 5 no gabinete da vereadora.
Outros atos publicados posteriormente registram mudanças em sua função durante o período em que permaneceu na estrutura do Legislativo municipal. Os documentos, porém, não comprovam os valores líquidos mencionados pelo ex-assessor nem a existência de uma condição para devolução de parte do salário.
A exoneração foi formalizada pela Portaria nº 0184/2026-MD, de 22 de abril, publicada no dia seguinte. O ato não informa o motivo do desligamento.
Atividades na residência
Laércio afirma que, apesar de estar formalmente vinculado ao gabinete parlamentar, passou a cumprir parte de sua rotina na residência da vereadora. Segundo ele, preparava refeições, realizava tarefas domésticas e ajudava nos cuidados diários com Ryan.
O relato levanta ainda uma questão sobre a eventual utilização de um servidor remunerado com recursos públicos em atividades particulares. Até o momento, contudo, não foram apresentados registros de jornada, ordens de serviço ou outros documentos que permitam confirmar a rotina descrita pelo ex-assessor.
A documentação oficial comprova o vínculo funcional, mas não permite determinar quais tarefas eram efetivamente desempenhadas por Laércio durante o expediente.
Em manifestação pública, Thabatta não citou o ex-assessor nominalmente. A vereadora afirmou que estaria sendo alvo de acusações que classificou como absurdas e relacionou os ataques ao período eleitoral. Ela disse que deixaria o caso sob responsabilidade da Justiça.
No pronunciamento, Thabatta não apresentou esclarecimentos específicos sobre a suposta devolução de salários ou sobre as atividades particulares atribuídas ao ex-assessor.
Acusações sobre estrutura do gabinete
Laércio também afirmou que integrantes da equipe teriam sido orientados a entregar o primeiro salário para a compra de móveis para o gabinete. Segundo ele, parte da estrutura teria sido utilizada para atividades relacionadas à preparação pessoal da vereadora.
O ex-assessor relatou ainda que servidores participavam desses cuidados enquanto pessoas aguardavam atendimento.
Uso de carro e combustível
Outra acusação apresentada pelo ex-assessor envolve suposto uso de veículo e combustível da Câmara Municipal durante viagens de campanha pelo interior do Rio Grande do Norte.
Laércio afirma que assessores acompanhavam os deslocamentos e arcavam com a própria alimentação. Até o momento, porém, não foram apresentados registros de veículos, autorizações, abastecimentos ou agendas que permitam confirmar as circunstâncias descritas.
A participação de assessores em atividades externas, por si só, não comprova irregularidade. Para avaliar eventual uso indevido da estrutura pública, seria necessário verificar a finalidade de cada deslocamento, os períodos e os recursos empregados.
Outros pontos citados na entrevista
A entrevista também aborda um episódio envolvendo Thabatta em um shopping de Natal. Laércio afirmou que outra mulher trans teria sido vítima de discriminação no caso e que a vereadora teria recebido R$ 10 mil de indenização sem dividir o valor.
Documentos judiciais consultados, porém, registram que a própria Thabatta foi reconhecida como vítima no processo relacionado ao episódio. Em sentença de abril de 2024, a Justiça fixou indenização de R$ 5 mil.
Vereadora se manifesta
Em manifestação durante a campanha, Thabatta afirmou que os ataques contra ela aumentaram após sua aparição em uma pesquisa eleitoral para deputada federal. O levantamento mencionado não foi identificado no material analisado.
A candidata também fez referência a pessoas que teriam se apresentado como integrantes de sua rede de apoio durante a eleição anterior, mas não identificou os nomes.
Ao comentar as acusações, Thabatta afirmou que deixaria as questões sob responsabilidade da Justiça. No trecho analisado, entretanto, não apresentou respostas específicas às alegações feitas pelo ex-assessor sobre devolução de salários, compra de móveis ou realização de atividades particulares.
Até o momento, portanto, os documentos confirmam o vínculo de Laércio com o gabinete parlamentar, enquanto as acusações sobre repasses salariais e utilização do trabalho em atividades particulares permanecem baseadas no relato do ex-assessor e dependem de elementos independentes de comprovação.




