O Hospital Municipal de Natal, que deveria representar um avanço na estrutura pública de saúde da capital, ainda nem iniciou suas atividades e já se tornou motivo de insatisfação entre servidores. A unidade, que o ex-prefeito Álvaro Dias tentou entregar sem estar efetivamente pronta para funcionar, agora enfrenta uma nova controvérsia: a possibilidade de ser administrada por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) na gestão do atual prefeito Paulinho Freire.
A discussão levou servidores da saúde a programarem uma paralisação de 24 horas nesta quinta-feira (3). O movimento é organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Rio Grande do Norte (Sindsaúde-RN), que questiona a possibilidade de transferência da administração do hospital para a iniciativa privada e cobra a realização de concurso público para reforçar o quadro da rede municipal.
A manifestação está marcada para as 9h, em frente ao próprio Hospital Municipal, na Avenida Prefeito Omar O’Grady, prolongamento da Avenida Prudente de Morais, no bairro Pitimbu, nas proximidades da UPA de Cidade Satélite.
Entrega sem funcionamento
A situação atual também expõe problemas herdados da administração de Álvaro Dias. O hospital foi inaugurado simbolicamente em dezembro de 2024, no fim da gestão do então prefeito, mas a entrega ocorreu sem que a unidade estivesse em condições de iniciar o atendimento à população.
Desde então, a abertura efetiva do equipamento foi sucessivamente adiada por pendências estruturais e administrativas. O resultado é uma obra apresentada como concluída, mas que permaneceu sem prestar o serviço para o qual foi construída.
Agora, enquanto a Prefeitura tenta colocar o hospital em funcionamento, surge outro foco de tensão envolvendo o modelo de gestão escolhido para a unidade.
Paulinho aposta em estudo para PPP
Na administração de Paulinho Freire, a Prefeitura passou a avaliar a possibilidade de utilizar uma PPP para administrar o hospital. Em julho, o Município recebeu uma Manifestação de Interesse Privado apresentada pela empresa Epya Consultoria e Projetos Ltda.
A proposta ainda está em análise e não significa, por si só, que a unidade será entregue à iniciativa privada. Caso o Município considere o modelo vantajoso, será necessário realizar um chamamento público para que outras empresas também possam apresentar propostas.
Mesmo assim, a possibilidade já provocou reação dos servidores. O Sindsaúde defende que o hospital permaneça sob gestão pública e tenha seu quadro formado por trabalhadores concursados.
A entidade também aponta problemas relacionados à falta de profissionais, às condições estruturais da rede municipal e à necessidade de ampliar o atendimento à população.
Insatisfação antes mesmo da abertura
O cenário chama atenção porque o hospital ainda sequer consolidou o início de suas operações e já acumula desgaste político e sindical. Primeiro, a unidade enfrentou a demora para começar a funcionar depois de ser entregue pela gestão anterior. Agora, a possibilidade de uma PPP colocada em discussão pela atual administração acrescenta uma nova fonte de insatisfação.
A promessa de transformar o hospital em uma referência para a saúde pública de Natal, portanto, esbarra em uma sequência de problemas que atravessa duas administrações municipais.
Enquanto Álvaro Dias deixou como marca uma unidade inaugurada sem condições de iniciar imediatamente os atendimentos, Paulinho Freire enfrenta resistência por discutir um modelo de gestão que pode levar a administração do equipamento para a iniciativa privada.
A Prefeitura sustenta que a análise da PPP não impede a abertura do hospital e que o funcionamento da unidade seguirá sendo tratado independentemente da decisão sobre uma eventual parceria. A previsão mais recente é que os atendimentos sejam iniciados nas próximas semanas, mas ainda não há uma data oficial definida.
O episódio coloca o Hospital Municipal em uma situação pouco confortável: antes mesmo de funcionar plenamente, o equipamento já se tornou palco de cobranças, protestos e divergências sobre a forma como deverá ser administrado.



